O déficit tecnológico da indústria brasileira vem crescendo significativamente. Em 2010, ele ficou em US$ 84,9 bilhões, superando em mais de US$ 20 bilhões, ou 33,2%, o resultado de 2008 – o pior registrado até então. Os dados são de levantamento da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (PROTEC) com base nas contas do País disponibilizadas pelo Ministério do Desenvolvimento. O conceito de déficit tecnológico foi criado pelo diretor-geral da PROTEC, Roberto Nicolsky, com o objetivo de obter um indicador para verificar a competitividade dos segmentos industriais brasileiros de maior intensidade tecnológica no comércio exterior. Este indicador, que reflete a intensidade da dependência brasileira por tecnologia, inclui o saldo comercial dos grupos de alta e de média-alta tecnologia e das contas de serviços tecnológicos, como computação, royalties e aluguel de equipamentos.




Em entrevista, Nicolsky falou que a gravidade do déficit tecnológico registrado em 2010 revela a fragilidade da indústria brasileira, que enfrenta o risco de desindustrialização com a alta do real e o custo Brasil. Para ele, se a tendência se mantiver, o País perderá cada vez mais conteúdo tecnológico. O diretor da PROTEC disse ainda que a competitividade das empresas nacionais em produtos de alta e média-alta tecnologia é significativamente baixa em termos de mercado global e que as exportações de 2010, da ordem de US$ 45,2 bilhões, resultam mais das estratégias comerciais de multinacionais instaladas no País e menos de uma política de Governo para incentivar a inovação na indústria e as exportações de produtos de alto valor agregado.




O déficit tecnológico da indústria brasileira só faz crescer. Em 2010, ficou em US$ 84,9 bilhões, superando em mais de US$ 20 bilhões, ou 33,2%, o resultado de 2008. O que explica isso?




Roberto Nicolsky – A explicação está na conjugação perversa de fatores macroeconômicos – tais como o real valorizado, os juros altos e a elevada carga fiscal – com a falta de efetividade das políticas industriais, principalmente a questão da falta de barreiras tarifárias e não tarifárias (controles de conformidade com normas técnicas, qualidade e preços praticados pelos importadores) e do fomento ao desenvolvimento de inovações tecnológicas nas empresas, mecanismo este que dispõe ainda de poucos recursos e além de serem oferecidos de maneira inapropriada e inadequada. A maneira própria é oferecer recursos para os investimento em desenvolvimento tecnológico de inovações com o partilhamento dos riscos tecnológicos e empresariais entre Estado e a empresa, como fazem todos os países desenvolvidos e, especialmente, aqueles emergentes que estão lutando por um lugar ao sol num cenário mundial previamente estabelecido. A nós ainda falta uma vontade política decidida. Há grandes expectativas de que o atual governo finalmente assuma essa decisão definitivamente.




A trajetória de valorização do real, a partir de 2006, tem alguma relação com o agravamento do déficit tecnológico no País?




Roberto Nicolsky – Certamente, embora o déficit tecnológico venha crescendo já há algum tempo. A valorização do real agravou o quadro de desagregação das cadeias produtivas nacionais por tornar os produtos importados, notadamente da China, extremamente competitivos. Assim, cria-se o paradoxo de que a produção industrial cresce, mesmo em volume, mas seu valor agregado nacional diminui, cedendo uma parcela cada vez maior do mercado interno aos produtos importados finalizados ou aos seus componentes.




Com os dados de gravidade do déficit tecnológico registrado em 2010, podemos dizer que a indústria brasileira enfrenta o risco de desindustrialização?




Roberto Nicolsky – É preciso não ter meias palavras e compreender que a indústria está em processo de desindustrialização de uma forma peculiar à nossa economia. Uma desindustrialização à brasileira. Ou seja, como dispomos de um grande mercado interno em fase de sólido crescimento da demanda, a atividade industrial, como um todo, cresce e dá argumentos aos céticos, que alegam normalidade ou um movimento natural. Ao se analisar profundamente o atual cenário, vemos que a quebra de cadeias produtivas por componentes importados está acarretando a desarticulação dos fornecedores e desativação de partes do processo produtivo. Daí resulta uma perda de conteúdo tecnológico, representado pela acumulação de experiências produtivas específicas, e o desaprendizado. Passados alguns anos, essa competência tecnológica fica perdida não só pela perda da memória, mas, principalmente, pela obsolescência compulsória.




Como você avalia a competitividade das empresas nacionais em produtos de alta e média-alta tecnologia em termos de mercado global?




Roberto Nicolsky – Ainda temos alguns nichos que preservaram a competência tecnológica por características específicas, tais como processarem matéria prima nacional (celulose de eucalipto, por exemplo), ou por já atuarem globalizados e poderem transferir a produção para filiais externas (multinacionais de eletrônica e telecomunicações etc.) com moeda menos valorizada. Para os demais setores da indústria de média-alta e alta intensidade tecnológica está havendo um verdadeiro massacre pelos produtores chineses desses produtos e componentes que os oferecem até para produzir com a nossa própria marca.




O que falta para uma política de governo eficaz que incentive a inovação na indústria e as exportações de produtos de alto valor agregado?




Roberto Nicolsky – Primeiramente, é preciso redefinir as variáveis macroeconômicas para reduzir os juros básicos e, assim, conter o efeito de atração de divisas. Atuar firmemente na defesa do mercado interno com os mecanismos tarifários e não tarifários disponíveis e isentar as exportação de qualquer tributo com liberação imediata dos benefícios fiscais. Por outro lado, é indispensável desonerar completamente os investimentos, para estimular as empresas ao crescimento da oferta e controlar a inflação, e dar um verdadeiro choque de inovação através do compartilhamento universal dos investimentos em inovação entre Estado e empresas para incorporar aos nossos produtos as qualidades competitivas dos importados e, com o tempo, melhorá-las competitivamente. É preciso lembrar sempre que o maior beneficiários dos investimento não é a empresa que corre o risco ao desenvolvê-los, pois a sua expectativa de benefício é o lucro que, em média, é de 8% da agregação líquida de valor, enquanto o Estado se apropria da sua carga fiscal (hoje 37%, em média) antes mesmo da apuração de lucro. É claro que isso é perverso com a empresa e desestimula qualquer iniciativa de inovação sistemática, a menos que esse Estado se torne parceiro através dos mecanismos de fomento. E isso ainda é um grande obstáculo entre em nossa cultura.




(Fonte: Revista Tic Mercado – 09/02/2011)

ABIFINA apresenta iniciativas ambientais, sociais e de governança de seus associados
Anterior

ABIFINA apresenta iniciativas ambientais, sociais e de governança de seus associados

Próxima

ABIFINA apresenta iniciativas ambientais, sociais e de governança de seus associados

ABIFINA apresenta iniciativas ambientais, sociais e de governança de seus associados