Seminário discutiu os impactos da disputa tecnológica global, os caminhos para fortalecer a produção nacional de medicamentos e bioativos e a importância da articulação entre políticas públicas

SIPID 2026 1074
Adriano Macedo Ramos (MDIC), Carina Mendonça Pimenta (MMA), Carla Reis (BNDES), Jorge Arbache (CEBC), Reginaldo Arcuri (Grupo FarmaBrasil), Walker Lahmann (Eurofarma/ABIFINA) e Andrey Freitas (ABIFINA)

SESSÃO DA TARDE

A disputa tecnológica e comercial entre Estados Unidos e China, em um cenário geopolítico cada vez mais instável, tem colocado a saúde no centro das políticas industriais dos países. Reduzir vulnerabilidades, fortalecer cadeias produtivas e ampliar a capacidade de inovação tornaram-se prioridades. Esse foi o eixo do painel “Geopolítica e macroeconomia da saúde: os impactos da inovação” no Seminário Internacional Patentes, Inovação e Desenvolvimento (SIPID) 2026, realizado pela ABIFINA no dia 3 de setembro, em Brasília.

Moderador do debate, o presidente-executivo da ABIFINA, Andrey Freitas, destacou a recente aprovação da Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ensceis) como parte dos esforços do Estado brasileiro para conquistar autonomia produtiva. Para ele, a Ensceis só foi possível porque, antes, o País reestruturou sua política industrial, tema amplamente debatido no painel.

SIPID 2026 848

“Pelo menos metade das tecnologias mais críticas para redefinir a economia verde possuem patentes chinesas. Por isso, os Estados Unidos estão segurando o desenvolvimento da economia verde. Na questão da saúde, não é diferente. Isso vai acontecer cada vez mais com o catch up tecnológico chinês”, explicou.

“Conferir relevância à cadeia industrial da saúde dentro da Nova Indústria Brasil [NIB] traz oportunidades para o desenvolvimento do País”, salientou.

Disputa tecnológica

Membro do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), Jorge Arbache explicou como a crescente tensão entre Estados Unidos e China impactam a indústria da saúde.

SIPID 2026 884

“Pelo menos metade das tecnologias mais críticas para redefinir a economia verde possuem patentes chinesas. Por isso, os Estados Unidos estão segurando o desenvolvimento da economia verde. Na questão da saúde, não é diferente. Isso vai acontecer cada vez mais com o catch up tecnológico chinês”, explicou.

Nesse ambiente global de incertezas, o setor da saúde assume cada vez mais relevância nas políticas industriais de diversos países, segundo Carla Reis, chefe do Departamento do Complexo Industrial e de Serviços de Saúde do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A NIB acertou ao seguir esse caminho, disse Reis. Porém, ressaltou que há necessidade de maior articulação entre governo e setor produtivo.

SIPID 2026 909

Para os próximos passos, Reis defendeu o fortalecimento da produção nacional de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs). “Poderíamos incluir incentivos para a indústria farmacêutica local ser mais propensa a adotar os farmoquímicos nacionais”, afirmou.

Essa verticalização da matriz produtiva significa garantir a soberania nacional, conforme argumentou Adriano Macedo Ramos, diretor do Departamento de Desenvolvimento da Indústria de Alta Complexidade Tecnológica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

SIPID 2026 962

“Precisamos olhar para a soberania produtiva, tecnológica e sanitária na saúde. Diante de tantos conflitos globais, os países querem trabalhar para se tornar menos dependentes”, sublinhou Ramos. Assim como Andrey Freitas, ele destacou o avanço que a Ensceis representa, pois aumenta a segurança jurídica e cria instrumentos inovadores para estimular a fabricação de produtos estratégicos.

Já o diretor-executivo da Eurofarma, Walker Lahmann, vice-presidente de Comércio Exterior da ABIFINA, acrescentou que agora o Brasil precisa avançar em escala e tecnologia para ampliar sua presença internacional.

SIPID 2026 508

“O Brasil fabrica um grande volume de produtos acabados, resultado da criação da Lei dos Genéricos e da Anvisa e do aumento da régua regulatória. Isso foi importante para impedir a chegada de produtos de baixa qualidade ao País. As empresas nacionais que investiram naquele momento se desenvolveram e oferecem produtos de nível internacional”, apontou.

Propriedade intelectual e biodiversidade

O painel também discutiu como o sistema de propriedade intelectual (PI) interfere no desenvolvimento da indústria. O presidente-executivo do Grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri, lembrou que boa parte das empresas farmacêuticas e farmoquímicas brasileiras nasceram na ditadura militar, que não permitia patentes de medicamento por considerar o setor chave para a soberania.

Em 1996, o Brasil adotou regras mais rígidas que o mínimo exigido pelo acordo internacional de PI – conhecido como TRIPS -, o que levou ao considerável desmonte da indústria da saúde. Neste momento, surgem tentativas de enrijecer ainda mais as regras do jogo.

SIPID 2026 1029

“Projetos de lei estão tentando introduzir no Brasil o que se chama, em inglês, patent term adjustment. O objetivo não é compensar um atraso do INPI – o que, aliás, está deixando de existir. É criar novamente a insegurança sobre quando acaba a patente. Porque, dessa forma, você não se prepara para produzir”, alertou Arcuri, que finalizou dizendo que as políticas públicas atuais só terão efeito se não houver essa incerteza.

Fechando o painel, a secretária nacional de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente, Carina Mendonça Pimenta, abordou o potencial dos recursos biológicos para gerar inovação e agregar valor à economia brasileira. Nesse sentido, ela destacou a criação da Política e do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, além da reformulação do Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen).

SIPID 2026 1089

Pimenta também falou sobre o Decreto n.º 13.014, de junho deste ano, que criou condições para empresas estrangeiras cadastrarem pesquisas com patrimônio genético brasileiro, por meio de uma rede nacional de instituições científicas. “Isso fomenta o Brasil como provedor de matérias-primas biológicas e traz conhecimento para o País”, argumentou.

Fronteiras da biotecnologia

SIPID 2026 1427
João Paulo Perfeito (GMESP), Igor Nazareth (Embrapii), Rafael de Sá Marques (MDIC), Rubén Dario Sinisterra Millán (Farmavax UFMG) Tatiana Ribeiro (ABIFINA/Grupo Centroflora), Willian Marandola (Biolab & Co.) e Ubiraci Filho (CFQ)

O último painel do SIPID 2026 focou no tema “Bioativos do futuro: as fronteiras da biotecnologia”. No início da sessão, a moderadora Tatiana Ribeiro, vice-presidente de Biodiversidade e Propriedade Intelectual da ABIFINA, ressaltou que a produção nacional de Insumos Farmacêuticos Ativos Vegetais (IFAVs) precisa estar ainda mais no radar das políticas públicas.

SIPID 2026 1121

“A ABIFINA trabalhou com a Anvisa no final do ano passado para estabelecer a priorização da análise de registros de medicamentos fitoterápicos inéditos no Brasil, com IFAs produzidos no País. Isso é um avanço regulatório”, declarou.

Outra melhoria foi a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 1.004/2025, publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para regular o registro/notificação de medicamentos fitoterápicos e tradicionais fitoterápicos. Este foi um dos pontos da apresentação de  João Paulo Perfeito, gerente de Medicamentos Específicos, Fitoterápicos, Dinamizados, Notificados e Gases Medicinais (GMESP) da autarquia.

SIPID 2026 1151

“Nosso próximo ponto de atenção na agenda regulatória da Anvisa são os medicamentos específicos, que pretendemos começar a discutir neste segundo semestre”, antecipou.

Passando ao tema do apoio ao desenvolvimento tecnológico, Igor Nazareth expôs o modelo de atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), onde é diretor de Inovação e Relações Institucionais. São dois diferenciais: a oferta de recursos em fluxo contínuo e o suporte dos Centros de Competência, unidades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) industrial operadas por Instituições de Ciência e Tecnologia credenciadas.

SIPID 2026 1189

“A Embrapii vê um movimento crescente de projetos de biotecnologia. Temos 100 projetos de biotecnologia para a saúde, inclusive com bioativos para tratamento de câncer ou com tecnologias de RNA”, afirmou.

Para discorrer sobre o processo de aprendizagem institucional até se tornar um Centro de Competência, participou do painel Rubén Dario Sinisterra Millán, coordenador da Unidade Embrapii Inovação de Fármacos e Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (Farmavax UFMG). Segundo ele, a comunidade acadêmica passou da visão de apenas publicar artigos para depositar e comercializar patentes com sucesso.

SIPID 2026 1276

Na sua visão, o Brasil já tem pesquisadores altamente capacitados, laboratórios de ponta e políticas públicas. “Falo para vocês que o Brasil está pronto. Vocês têm que acreditar. A curva de aprendizado não é só da indústria, é da universidade também, que já aprendeu a fazer negócios”.

Bioeconomia nas políticas públicas

Rafael de Sá Marques, coordenador-geral de Patrimônio Genético do MDIC, falou sobre a Estratégia e o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, que tem três missões específicas para a bioindústria. Os instrumentos resultaram de construção com a sociedade, a partir da escolha do governo de incentivar um setor produtivo capaz de dinamizar a economia.

SIPID 2026 1269

“A incorporação tecnológica, em quase todos os setores da indústria de transformação, implica em redução de postos de trabalho. No entanto, na bioindústria, o efeito é diferente. Porque estamos falando de trazer novos elos da cadeia produtiva para o País”, salientou.

Willian Marandola, diretor de Inovação da Biolab & Co., acrescentou a visão empresarial à discussão. Segundo ele, a indústria farmacêutica precisa ganhar escala para reduzir os riscos e tornar os investimentos em inovação mais eficientes. Para se ter uma ideia, ele contou que um projeto de P&D precisa de, pelo menos, 30 ativos viáveis para conseguir chegar a um lançamento.

SIPID 2026 1322 (1)

Nesse contexto, a Biolab investe em inteligência artificial – para a predição das melhores moléculas candidatas e maior eficiência no desenvolvimento -, na inovação aberta e nas plataformas tecnológicas, que atendem transversalmente a diferentes produtos. “As plataformas tecnológicas são extremamente importantes porque dão escala e trazem competência para a companhia”.

Os recursos humanos constituem outro fator crítico para a P&D e a produção de bioativos. O Brasil forma profissionais em número e qualificação suficientes? Para Ubiraci Filho, do Conselho Federal de Química, o País possui pesquisadores de excelência na área química.

SIPID 2026 1388

Na sua visão, o Brasil já tem pesquisadores altamente capacitados, laboratórios de ponta e políticas públicas. “Falo para vocês que o Brasil está pronto. Vocês têm que acreditar. A curva de aprendizado não é só da indústria, é da universidade também, que já aprendeu a fazer negócios”.

“Talvez a lacuna seja agregar mais uma formação”, afirmou, ponderando que a dificuldade de compreender o regulatório farmacêutico e as exigências da indústria pode afastar esses profissionais. “Talvez a gente tenha profissionais de Norte a Sul do País extremamente capacitados. Talvez a gente não enxergue isso. Talvez o profissional nem queira, porque está satisfeito com sua pesquisa”, refletiu.

Para concluir o seminário, foi realizada a entrega do Prêmio Denis Borges Barbosa de Propriedade Intelectual e Interesse Público, homenageando iniciativas e personalidades de destaque no cenário tecnológico e regulatório do Brasil.

Veja também:

Cobertura da sessão manhã
Com foco em inovação e soberania produtiva, SIPID completa 20 anos reunindo líderes do setor em Brasília

Prêmio Denis Borges Barbosa de Propriedade Intelectual e Interesse Público
Tatiana Coelho de Sampaio recebe Prêmio Denis Borges Barbosa no SIPID 2026

Tatiana Coelho de Sampaio recebe Prêmio Denis Borges Barbosa no SIPID 2026
Anterior

Tatiana Coelho de Sampaio recebe Prêmio Denis Borges Barbosa no SIPID 2026

Próxima

Com foco em inovação e soberania produtiva, SIPID completa 20 anos reunindo líderes do setor em Brasília

Com foco em inovação e soberania produtiva, SIPID completa 20 anos reunindo líderes do setor em Brasília