REVISTA FACTO
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Mai-Ago 2026 • ANO XX • ISSN 2623-1177
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A lógica que conecta saúde humana, animal e ambiental para prevenir emergências sanitárias
//Entrevista Jarbas Barbosa

A lógica que conecta saúde humana, animal e ambiental para prevenir emergências sanitárias

A FACTO entrevistou o médico sanitarista e epidemiologista Jarbas Barbosa, atual diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), sobre o conceito de Uma Só Saúde, ou Saúde Única – abordagem integrada que reconhece a interconexão entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental. Barbosa explica como a Opas adota essa visão sistêmica e multidisciplinar para mobilizar a região no enfrentamento de zoonoses, resistência antimicrobiana e crises climáticas, com exemplos que vão da influenza aviária e febre amarela à febre aftosa, cujo centro de referência fica no Brasil. Também ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Barbosa analisa como a recente estratégia pública brasileira para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde pode incorporar práticas capazes de integrar essas diversas dimensões apontadas.

O que falta para transformar o conceito de Uma Só Saúde em ações concretas?

O principal desafio é passar do conceito para mecanismos permanentes de governança, coordenação e financiamento. Uma Só Saúde não é apenas uma forma de pensar, mas uma forma de organizar políticas públicas, sistemas de vigilância, laboratórios e gestão de riscos.

As Américas já têm exemplos concretos que demonstram que a integração funciona. Um dos mais emblemáticos é o Programa Regional para a Eliminação da Raiva Humana Transmitida por Cães, coordenado pelo Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária (Panaftosa) da Opas desde 1983, que permitiu reduzir drasticamente os casos humanos na região. A experiência mostra que, quando existe coordenação intersetorial sustentada, metas comuns e mecanismos de cooperação, a abordagem de Uma Só Saúde deixa de ser um conceito e passa a gerar resultados concretos.

O próximo passo é levar essa experiência a outros desafios. Isso significa fortalecer a análise de riscos, a interoperabilidade dos sistemas de informação e a capacidade de transformar evidências científicas em decisões. A política de Uma Só Saúde da Opas, aprovada em 2021, estabelece justamente esse marco para promover ações multissetoriais e integradas.

Como Uma Só Saúde pode ajudar os países a se prepararem para futuras emergências de saúde?

A principal lição é que muitas ameaças emergem na interface entre seres humanos, animais e ambiente. Por isso, a preparação deve começar muito antes da emergência, com vigilância integrada, laboratórios fortalecidos, análise de risco e troca de informações entre setores.

A influenza aviária é um bom exemplo. A resposta mais eficaz ocorre quando serviços veterinários, saúde pública, autoridades ambientais e setor produtivo trabalham juntos para detectar precocemente os riscos e implementar medidas coordenadas de prevenção e pronta resposta.

O mesmo ocorre com a febre amarela, em que a vigilância integrada de primatas não humanos, vetores e casos humanos permite antecipar áreas de risco. Da mesma forma, o enfrentamento da resistência aos antimicrobianos requer uma atuação coordenada entre os setores de saúde humana, de saúde animal, de produção de alimentos e de meio ambiente. Nesse contexto, a abordagem de Uma Só Saúde possibilita integrar prevenção, preparação e resposta de forma mais articulada e eficiente.

A discussão costuma ser associada às zoonoses, mas envolve também mudanças climáticas, segurança alimentar, biodiversidade e outros desafios. Quais questões deveriam receber maior atenção hoje no Brasil e nas Américas?

As zoonoses continuam sendo prioritárias, mas estão inseridas em um contexto mais amplo e complexo. Hoje, é fundamental considerar também os impactos das mudanças climáticas sobre as doenças transmitidas por vetores, o avanço da resistência aos antimicrobianos, os desafios relacionados à segurança dos alimentos, a degradação ambiental e a perda de biodiversidade.

Essas questões são particularmente importantes para o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores mundiais de proteína animal e de produtos agropecuários. A sustentabilidade dos sistemas produtivos, a segurança dos alimentos e a capacidade de prevenir riscos sanitários têm impacto direto tanto na saúde pública quanto na competitividade econômica do País.

Na América Latina e no Caribe, a região amazônica, os corredores de biodiversidade e as áreas sujeitas a rápidas transformações ambientais merecem atenção especial, pois concentram importantes fatores de risco para o surgimento e a disseminação de doenças.

Nesse contexto, iniciativas apoiadas pela Opas, como a Rede Amazônia-Darién para Zoonoses Emergentes (Rade), o fortalecimento das redes de laboratórios, os programas regionais de vigilância e as ações de análise de risco em segurança dos alimentos demonstram como Uma Só Saúde pode ser operacionalizada na prática entre os setores da saúde humana, animal e do meio ambiente.

Quais são os desafios para enfrentar a resistência aos antimicrobianos?

A resistência aos antimicrobianos é um dos exemplos mais claros de Uma Só Saúde em ação. Nenhum setor é capaz de enfrentar esse problema isoladamente. Precisamos avançar no uso responsável e prudente dos antimicrobianos, tanto na saúde humana quanto na animal, fortalecer a vigilância integrada, aprimorar as práticas de prevenção de infecções e ampliar a capacidade laboratorial.

Nesse contexto, a segurança dos alimentos desempenha um papel fundamental. Os alimentos e os sistemas de produção podem contribuir para a disseminação de microrganismos resistentes e, por isso, a vigilância antimicrobiana precisa considerar também a cadeia produtiva de alimentos.

O grande desafio, porém, continua sendo transformar essa visão integrada em ações concretas. Muitos países já contam com planos nacionais, mas é necessário traduzi-los em programas plenamente operacionais. Para isso, são necessários sistemas integrados de vigilância, laboratórios preparados, papéis claramente definidos para cada setor, governança fortalecida, marcos regulatórios adequados e financiamento sustentável, a fim de garantir a implementação contínua das ações e sua capacidade de gerar resultados concretos.

Esse esforço envolve todos os setores: desde os produtores rurais e os serviços veterinários até os profissionais de saúde, os laboratórios e os consumidores. Cada um tem um papel importante no uso responsável e prudente dos antimicrobianos. A resistência aos antimicrobianos evidencia, de forma clara, que problemas complexos e interconectados como esse só podem ser enfrentados por meio de uma abordagem verdadeiramente integrada de Uma Só Saúde.

Como transformar as capacidades brasileiras em soluções baseadas em Uma Só Saúde?

O Brasil possui uma combinação singular de ativos: biodiversidade, ciência, infraestrutura laboratorial, agronegócio competitivo e um complexo industrial relevante nas áreas farmacêutica, veterinária e biotecnológica. Essa base oferece oportunidades excepcionais para desenvolver vacinas, diagnósticos, novas tecnologias de vigilância, produtos biológicos e soluções digitais capazes de responder, de forma integrada, aos desafios de saúde humana, animal e ambiental.

Além dessas capacidades, o País deu um passo importante ao criar, em 2024, o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, para apoiar a elaboração e implementação do Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde. O Comitê representa um avanço na estrutura de governança capaz de articular os setores de saúde, agricultura, meio ambiente, pesquisa e inovação em torno de prioridades comuns.

O Brasil também conta com instituições de referência mundial, como a Fiocruz, o Butantan, o Instituto Evandro Chagas, a Embrapa e diversas universidades. A integração da excelência científica dessas instituições, combinada com a capacidade de inovação e produção da indústria, cria um ambiente propício para o desenvolvimento e a expansão de soluções em Uma Só Saúde. Esse potencial abrange desde vacinas e diagnósticos até biotecnologias, sistemas de vigilância e ferramentas para uma produção agropecuária mais sustentável e resiliente.

De que forma políticas como a Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ensceis) podem incorporar a perspectiva de Uma Só Saúde?

Soberania sanitária e Uma Só Saúde são agendas complementares. A experiência da covid-19 mostrou a importância de contar com capacidades nacionais e regionais para produzir vacinas, diagnósticos, medicamentos e insumos estratégicos.

Nesse sentido, a Ensceis pode incorporar a perspectiva de Uma Só Saúde ao orientar investimentos em pesquisa, inovação e capacidade produtiva para desafios que ultrapassam a saúde humana, como zoonoses, resistência aos antimicrobianos, vigilância genômica, biotecnologia e segurança dos alimentos. Isso significa considerar, na definição das prioridades da estratégia, as conexões entre saúde humana, saúde animal, produção de alimentos e meio ambiente.

Para isso, é fundamental aproximar os setores público e privado, criando parcerias que possam permitir a transformação de conhecimento científico e necessidades de saúde em tecnologias e soluções aplicáveis.

Isso exige compreender os riscos de forma integrada e identificar prioridades comuns entre os diferentes setores. A análise conjunta de riscos, a vigilância integrada e o compartilhamento de informações permitem identificar prioridades comuns e orientar melhor os investimentos para responder às ameaças mais relevantes para o País.

Dessa forma, a Ensceis pode contribuir não apenas para fortalecer a soberania sanitária, mas também para reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer a resiliência dos sistemas de saúde diante de futuras emergências sanitárias.

Qual deve ser o papel da indústria nesse processo?

A indústria é um parceiro estratégico e indispensável para a implementação de Uma Só Saúde. Além da sua capacidade de inovação e investimento, ela é responsável por transformar conhecimento científico em soluções concretas, incluindo medicamentos, vacinas, diagnósticos, biológicos, tecnologias digitais e ferramentas para produção sustentável. Muitas das boas práticas relacionadas ao uso responsável de antimicrobianos, biossegurança, produção animal sustentável e segurança dos alimentos dependem diretamente da participação ativa do setor produtivo, em colaboração com governos, universidades e instituições de pesquisa.

Por isso, é fundamental fortalecer parcerias entre as indústrias farmacêutica, veterinária, de alimentos e de biotecnologia, o setor agropecuário, universidades, centros de pesquisa, governos e organismos internacionais, criando um ambiente favorável à inovação e à implementação de soluções de Uma Só Saúde.

A indústria tem um papel fundamental nessa construção, contribuindo não apenas com tecnologias e capacidade produtiva, mas também com conhecimento, inovação e soluções que fortaleçam a prevenção, a resiliência e a sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Quais devem ser as prioridades do Brasil e das Américas nos próximos dez anos?

Olhando para os próximos dez anos, destacaria cinco prioridades para o Brasil e para as Américas na área de Uma Só Saúde.

A primeira é consolidar mecanismos permanentes de governança de Uma Só Saúde, fortalecendo iniciativas nacionais, como, no caso do Brasil, o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde e sua articulação com estados e municípios. Precisamos transformar a colaboração entre saúde, agricultura, meio ambiente, ciência e tecnologia em uma prática institucional, e não em uma resposta excepcional diante de uma emergência.

A segunda é integrar a vigilância e a capacidade de resposta. Isso significa aproximar sistemas de vigilância epidemiológica, laboratórios, análise de risco e vigilância genômica dos setores de saúde humana, animal e ambiental, com maior interoperabilidade e compartilhamento de dados. Quanto mais cedo identificarmos um risco, maior será nossa capacidade de preveni-lo ou contê-lo.

A terceira é acelerar os investimentos em ciência, inovação e transformação digital. A quarta é intensificar o enfrentamento da resistência aos antimicrobianos. E a quinta é fortalecer a resiliência diante das mudanças climáticas, dos eventos extremos e do surgimento e do reaparecimento de doenças já conhecidas. As experiências recentes mostram que os riscos estão cada vez mais interconectados e que precisamos preparar nossos sistemas antes que as emergências aconteçam.

A boa notícia é que as Américas já possuem experiências bem-sucedidas de cooperação regional, como as iniciativas para eliminação da raiva humana transmitida por cães, as redes regionais de laboratórios, incluindo a Rede Regional de Vigilância Genômica (PAHOGen), que fortalece a detecção e caracterização de patógenos emergentes, e mecanismos de coordenação para influenza zoonótica, como a Comissão Intersetorial para a Prevenção e Controle da Influenza Zoonótica nas Américas (CIPCIZA). Outras iniciativas, como a Rade, demonstram o valor da colaboração entre os setores de saúde humana, animal e ambiental para prevenir e responder a ameaças em áreas de alto risco.

O desafio da próxima década será levar essas experiências a uma escala maior e transformá-las em capacidades permanentes. Uma Só Saúde precisa deixar de ser apenas um conceito ou uma resposta a emergências e passar a orientar, de forma consistente, as políticas públicas, a vigilância, a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento produtivo. Se conseguirmos fazer isso, estaremos não apenas mais preparados para a próxima emergência, mas também construindo sistemas de saúde mais resilientes, sustentáveis e capazes de proteger melhor as populações das Américas.

Como a Política de Uma Só Saúde para as Américas tem contribuído para realizar ações concretas na região?

A Política de Uma Só Saúde da Opas tem ajudado os países a transformar essa abordagem em ações concretas ao apoiá-los no fortalecimento de capacidades que exigem atuação coordenada entre diferentes setores. Isso inclui a vigilância integrada e o fortalecimento dos laboratórios, da análise de risco e dos mecanismos de coordenação entre os setores de saúde humana, animal e ambiental.

Nesse processo, o Panaftosa, centro especializado da Opas sediado no Brasil, que celebra 75 anos de atuação em 2026, tem desempenhado um papel fundamental no fortalecimento da Saúde Pública Veterinária e da abordagem de Uma Só Saúde nas Américas. Criado originalmente para apoiar os países no controle e na erradicação da febre aftosa na América do Sul, o Centro expandiu progressivamente seu mandato para apoiar os Estados-Membros no enfrentamento das zoonoses e da resistência aos antimicrobianos, bem como no fortalecimento das ações em segurança dos alimentos, em vigilância, em redes laboratoriais e em preparação para emergências sanitárias na interface entre saúde humana, animal e ambiental.

Na prática, isso significa ajudar os países a conectar capacidades, informações e diferentes áreas de atuação para antecipar riscos e responder de forma mais integrada. Mais do que um conceito, a Opas está consolidando Uma Só Saúde como uma forma de organizar políticas públicas e fortalecer a capacidade dos países de prevenir, detectar e responder a ameaças cada vez mais complexas e interconectadas.

Jarbas Barbosa
Jarbas Barbosa
Médico sanitarista e epidemiologista. Diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
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