Pesquisa da Universidade Federal do Amapá identifica redução de edema e alterações articulares em modelo animal tratado com Chronic-in®, mas novas etapas são necessárias antes de qualquer aplicação clínica
Biodiversidade, ciência farmacêutica e nanotecnologia se encontram em um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (Unifap), liderado por mim e desenvolvido pela médica Lauana Gomes, que avaliou, em ratos, uma nanodispersão injetável à base do óleo fixo das sementes de Bixa orellana L., o urucum. Denominada Chronic-in®, a formulação foi testada em um modelo experimental de artrite associada ao diabetes, por meio de avaliações farmacológicas, comportamentais, radiográficas e histopatológicas. O estudo foi vencedor da Categoria Acadêmica do III Prêmio Pio Corrêa da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil, em 2025.
Os resultados apontaram redução dos sinais inflamatórios e preservação da integridade articular nos animais que receberam a nanodispersão. A via intramuscular apresentou o melhor desempenho entre as duas rotas avaliadas, enquanto a via subcutânea apresentou resultados semelhantes. Por se tratar de um estudo pré-clínico, os achados não significam que o produto esteja aprovado para uso em pessoas, nem permitem concluir que os efeitos observados em ratos se repetirão em pacientes. O trabalho oferece evidências iniciais para uma estratégia que ainda passará por novas avaliações, que estão sendo investigadas agora em nível de ensaio clínico.
Um desafio que combina diabetes, inflamação e lesão articular
O diabetes mellitus pode favorecer a inflamação persistente, a perda de sensibilidade e o comprometimento da propriocepção. Quando esses fatores afetam uma articulação, sobrecargas e microlesões podem evoluir para dor, edema, deformidades e deterioração da superfície articular. Por isso, novas moléculas e formulações são estratégicas.
O urucum contém tocotrienóis e geranilgeraniol, compostos associados a propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. A equipe incorporou seu óleo a um sistema nanoparticulado preparado por nanoprecipitação, com BO2022-GG, Tween 80 e Eudragit RLPO®, visando favorecer a estabilidade e a liberação do ativo.
O modelo experimental
Foram utilizados 25 ratos Wistar machos. Para reproduzir, em condições controladas, a associação entre diabetes e inflamação articular, os animais receberam aloxana por via intraperitoneal e adjuvante completo de Freund na pata. O protocolo foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso de Animais da Unifap, sob o parecer nº 021/2022, e seguiu as diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Os animais foram distribuídos em cinco grupos. Um grupo controle foi composto por ratos normais tratados com solução salina. Entre os animais com artrite e diabetes, um grupo recebeu solução salina; outro, indometacina oral, como referência farmacológica; e dois grupos receberam Chronic-in® na dose de 2,5 mg/kg, por via subcutânea diariamente ou por via intramuscular a cada três dias. Foram avaliados edema, índice artrítico, movimentação, desempenho no Rotarod, radiografias, análise da superfície articular por microscopia eletrônica, bem como parâmetros laboratoriais e histopatológicos.
Redução de edema e preservação articular
A redução do edema foi significativa nos grupos tratados com Chronic-in®, por ambas as vias, e no grupo tratado com indometacina, em comparação com o grupo tratado apenas com solução salina. A diferença significativa alcançou p < 0,001. O resultado indica que a nanodispersão reduziu um dos sinais mais evidentes do processo inflamatório no modelo estudado.
O índice artrítico, avaliado no 28º dia, reforçou a tendência. O grupo controle apresentou média de 0; o grupo salina, 2,8 pontos; e o grupo indometacina, 1,8 pontos. Nos grupos tratados com Chronic-in®, as médias foram de 0,5 para a aplicação subcutânea e de 1,0 para a aplicação intramuscular. Esses números sugerem menor expressão da inflamação nos animais tratados, embora devam ser interpretados no contexto das condições do experimento.
A análise radiográfica mostrou um padrão semelhante. No escore de Eichenholtz modificado, o grupo salina obteve média de 1,6 pontos; a indometacina, 1,2; o Chronic-in® subcutâneo, 0,8; e o Chronic-in® intramuscular, 0,6. O grupo controle ficou em zero. As superfícies articulares dos grupos Chronic-in® também se aproximaram do padrão observado nos animais controle, com menos depósitos, fissuras e fibrilações. Houve uma exceção no grupo intramuscular: um animal apresentou três lesões com 151, 220 e 994 micrômetros.
Mobilidade, tecidos e próximos passos
Nos testes de mobilidade, os grupos tratados com Chronic-in® apresentaram melhores resultados do que o grupo tratado com salina, sobretudo na administração intramuscular. Os dados sugerem menor limitação do movimento no modelo, mas não permitem tirar conclusões diretas sobre os efeitos em seres humanos.
A histopatologia das articulações apontou redução da inflamação e menor perda de proteoglicanos nos grupos Chronic-in®. Já nos animais que receberam solução salina e, em maior medida, indometacina, observaram-se espessamento da membrana sinovial e formação de pannus. No fígado, a vacuolização gordurosa foi focal com Chronic-in® e mais disseminada nos grupos salina e indometacina.
O grupo indometacina apresentou glicemia mais elevada e aumento das escórias nitrogenadas, achados não observados nos grupos Chronic-in®. Os resultados ajudam a orientar novas avaliações, mas não substituem investigação toxicológica completa.
A comparação entre as vias sugere vantagem da administração intramuscular, possivelmente relacionada a uma liberação mais prolongada. A via subcutânea também resultou em melhora em diferentes parâmetros. A convergência dos resultados fortalece a hipótese de ação sobre as manifestações inflamatórias e as alterações estruturais no modelo.
Um estudo com 25 animais não define eficácia clínica, dose para seres humanos, segurança de longo prazo ou superioridade terapêutica. Antes de qualquer aplicação clínica, seriam necessárias replicações independentes, estudos farmacocinéticos e toxicológicos, padronização da formulação, avaliação de doses e vias de administração, e ensaios clínicos submetidos às exigências regulatórias.
O trabalho da Unifap ilustra uma agenda estratégica para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde: transformar recursos da biodiversidade brasileira em produtos farmacêuticos com base tecnológica, controle de qualidade e evidência científica. A nanotecnologia funciona como uma ponte entre o ativo natural e uma possível solução farmacêutica. O próximo desafio é transformar os sinais promissores em conhecimento reprodutível.



