REVISTA FACTO
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Set-Dez 2025 • ANO XIX • ISSN 2623-1177
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Integração para superar o ‘vale da morte tecnológico’
//Entrevista Thiago de Mello Moraes

Integração para superar o ‘vale da morte tecnológico’

Com frequência, a inovação no Brasil enfrenta uma espécie de “vale da morte tecnológico”. Isso porque as instituições de pesquisa, em geral, só conseguem avançar nos projetos até os Níveis de Maturidade Tecnológica (TRLs, na sigla em inglês) iniciais, enquanto a maioria das empresas se interessa apenas pelos projetos com maior grau de maturidade. É assim, na fase intermediária, que muitas pesquisas brasileiras se perdem e não se transformam em inovação no mercado.

Para superar esse gargalo, a principal aposta do Governo Federal é a integração entre todos os atores que compõem o ecossistema nacional de inovação, como ressalta o coordenador-geral de Ciências da Saúde, Biotecnológicas e Agrárias, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Thiago de Mello Moraes.

Em entrevista para a FACTO, Moraes apresenta as estratégias do MCTI para fomentar a aproximação entre as Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) e as empresas; prover acesso à infraestrutura de pesquisa necessária e a instrumentos financeiros inovadores; e coordenar ações com outras instâncias do Governo Federal, integrando desde a pesquisa até a produção industrial e a oferta de novos produtos. Ele também destaca as rotas tecnológicas prioritárias na atuação do Ministério e a contribuição do Projeto Orion, no âmbito do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), para aprimorar a infraestrutura científica no Brasil.

A biotecnologia brasileira tem avançado, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar pesquisa em produto. Na sua avaliação, quais são hoje os principais gargalos que impedem a chegada de novas tecnologias ao mercado e como o MCTI tem atuado para superá-los?

Um dos gargalos mais relevantes é a baixa aproximação entre ICTs e empresas. Isso não ocorre por falta de qualidade científica, mas sim por uma assimetria natural entre as etapas de pesquisa realizadas pelas ICTs e a lógica de investimento do setor produtivo.

As nossas ICTs, por limitações de infraestrutura, recursos e mandato institucional, geralmente conseguem avançar projetos apenas até os Níveis de Maturidade Tecnológica (TRLs, na sigla em inglês) iniciais, produzindo provas de conceito e validações preliminares. Já a maior parte das empresas brasileiras, com algumas exceções importantes, tende a se interessar somente por tecnologias com maior grau de maturidade, com risco tecnológico já reduzido e, preferencialmente, associadas a garantias de compra ou políticas claras de demanda.

Essa combinação cria uma lacuna, pois a pesquisa nas ICTs avança até onde pode e o setor produtivo só se mobiliza quando o risco já foi mitigado. Entre esses dois pontos, existe um “vale da morte tecnológico” que impede que descobertas científicas se tornem produtos, processos ou soluções industriais.

Além disso, há desafios adicionais, como a limitação de infraestrutura de escalonamento e biomanufatura, financiamento insuficiente para etapas de validação e certificação, e a ausência de uma cultura regulatória integrada aos ambientes de pesquisa, o que retarda o processo de desenvolvimento e a futura submissão regulatória.

O MCTI tem atuado justamente para reduzir esse descompasso. As chamadas públicas lançadas pelas agências do MCTI – a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) – têm buscado priorizar o desenvolvimento tecnológico em TRLs intermediários, criando um espaço de transição entre laboratório e mercado. Também estamos estimulando que ICTs incorporem, desde o início dos projetos, requisitos regulatórios, de ensaios e de biossegurança, para que as tecnologias amadureçam de forma compatível com a futura demanda privada e com as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A integração entre ICTs, empresas e órgãos públicos é fator essencial para o desenvolvimento de biofármacos e para a articulação com o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), conectando pesquisa, regulação e produção.

O relatório Deep Tech Radar Brasil 2025 mostra que quase metade das deep techs brasileiras atua em biotecnologia, mas grande parte enfrenta dificuldades de acesso à infraestrutura científica. Que iniciativas podem ampliar o uso compartilhado de laboratórios, plantas-piloto e ambientes de teste previstos no Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I)?

O diagnóstico do Deep Tech Radar mostra algo que conhecemos bem: o País tem um volume crescente de startups de base científica, mas a infraestrutura de que essas empresas precisam, como laboratórios multiusuários, plantas-piloto, biotérios, plataformas de bioimagem, salas limpas e ambientes regulatórios de teste, ainda são insuficientes ou de difícil acesso. Para enfrentar esse desafio, nossas prioridades devem ser organizadas em três frentes complementares.

A primeira seria tornar a infraestrutura existente, de fato, acessível. Isso envolve criar um catálogo nacional de laboratórios e plantas-piloto, com preços, horários disponíveis, capacidades técnicas e requisitos de acesso, facilitando a conexão entre ICTs e empresas. O Marco Legal de CT&I já permite o uso compartilhado, mas é preciso transformar essa possibilidade jurídica em prática cotidiana, com governança, regras claras e transparência.

A segunda frente são os instrumentos financeiros que permitem o acesso real, e não apenas formal. Isso inclui financiamento para custear horas-máquina, insumos, treinamento e serviços especializados. Esse tipo de mecanismo reduz a barreira econômica que impede muitas deep techs de acessarem equipamentos de alto custo. As Unidades Embrapii também cumprem papel essencial, pois funcionam como portas de entrada para empresas que precisam de serviços de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), ensaios, prototipagem e testes pré-industriais.

A terceira frente é aproximar ICTs e empresas desde o início. Muitas ICTs só conseguem avançar até TRLs iniciais, e é nesse cenário que as deep techs e startups atuam como elo de ligação entre ICTs e empresas. Contudo, ainda precisamos aprimorar os modelos de financiamento voltados especialmente a esses atores.

O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), com o Sirius (a nova fonte de luz síncrotron do Brasil) e o futuro Laboratório NB4 (nível máximo de contenção biológica) integrado ao Projeto Orion, coloca o Brasil em posição diferenciada na infraestrutura científica global. Como essa estrutura pode acelerar o desenvolvimento de biotecnologias estratégicas para saúde, agro e biodiversidade?

O Projeto Orion representa um salto estrutural para o País. Ele será o primeiro laboratório NB4 da América Latina e o único no mundo a operar integrado a uma fonte de luz síncrotron, o Sirius. Essa combinação cria uma infraestrutura científica inédita globalmente, permitindo ao Brasil realizar estudos de altíssima complexidade sobre vírus e bactérias de máximo risco biológico, com acesso direto a técnicas avançadas de bioimagem, criomicroscopia e caracterização estrutural de biomoléculas.

Do ponto de vista da inovação, o Orion acelera a biotecnologia ao permitir o desenvolvimento de novas vacinas, terapias e ferramentas de diagnóstico para vírus locais de alta periculosidade, como o vírus Sabiá, por exemplo. A capacidade de visualizar estruturas biomoleculares com precisão atômica reduz o tempo entre a descoberta científica e a identificação de alvos terapêuticos ou de compostos com potencial farmacêutico. 

Mas o Orion não é apenas um centro de pesquisa de ponta, pois ele também cumpre uma função estratégica de vigilância epidemiológica e biossegurança nacional. A infraestrutura NB4 permitirá que o Brasil estude patógenos emergentes e reemergentes sem depender de laboratórios estrangeiros. Isso fortalece nossa capacidade de detectar variantes, monitorar surtos, estudar mecanismos de infecção e desenvolver contramedidas com rapidez. Em um mundo marcado por emergências sanitárias, essa capacidade é central para a soberania sanitária do País.

O complexo inclui ainda um laboratório mockup de treinamento, que forma equipes especializadas para operar ambientes de máxima contenção, algo inexistente hoje no Brasil e na América Latina até então. Isso cria uma nova geração de profissionais aptos a trabalharem em biossegurança, biotecnologia avançada e vigilância laboratorial.

Por fim, cabe destacar que o Orion foi concebido para ser uma infraestrutura aberta, aproximando ICTs, empresas e órgãos públicos. Ele não apenas produzirá conhecimento, mas organizará um ecossistema capaz de transformar descobertas em aplicações industriais, insumos de saúde, biofármacos e tecnologias de interesse do Sistema Único de Saúde (SUS) e do agro. Sua integração ao Sirius, ao CEIS e à agenda de biodiversidade coloca o Brasil em um novo patamar global de ciência, inovação e vigilância epidemiológica.

A biotecnologia aplicada à saúde, ao agro e à biodiversidade tem potencial para reduzir vulnerabilidades produtivas nacionais. Quais rotas tecnológicas o MCTI considera prioritárias para fortalecer a base industrial do País nos próximos anos?

O Brasil tem uma posição singular no cenário global, pois, além da capacidade científica instalada, somos o país com a maior biodiversidade do planeta.

Isso significa que temos um potencial extraordinário para desenvolver novas moléculas, princípios ativos, enzimas, proteínas e micro-organismos com aplicações diretas em saúde, agro e bioprocessos industriais. Por isso, uma das rotas prioritárias do MCTI é transformar essa riqueza biológica em inovação, soberania tecnológica e produtos de alto valor agregado.

No campo da saúde, trabalhamos para fortalecer plataformas vacinais, terapias avançadas (incluindo RNA e anticorpos monoclonais), novos materiais biológicos e, de forma especial, a descoberta de moléculas bioativas derivadas da biodiversidade, que podem originar antibióticos, antivirais, anti-inflamatórios ou novos candidatos a fármacos. A biodiversidade brasileira oferece compostos únicos, ainda pouco explorados, que têm potencial para suprir lacunas do CEIS e reduzir a dependência de insumos importados.

No agro, nossas prioridades incluem bioinsumos, biofertilizantes, biopesticidas e soluções baseadas em microbiomas nativos, capazes de aumentar a produtividade com menor impacto ambiental. Essa agenda é estratégica não apenas para substituir insumos importados, mas para consolidar um agro mais sustentável, com redução de resíduos químicos, maior resiliência climática e ampliação da competitividade internacional.

Outra rota fundamental é a biomanufatura, incluindo bioprocessos, células hospedeiras otimizadas, fermentação avançada e engenharia metabólica. Essa frente dialoga com as indústrias química, farmacêutica, de cosméticos, alimentos e energia. Ela é a ponte entre a biodiversidade e a produção industrial, transformando recursos biológicos em moléculas, materiais e produtos escaláveis.

Também destaco o fortalecimento de plataformas de diagnósticos avançados, genômica, bioinformática e inteligência artificial aplicada à biologia. Esses campos aceleram a identificação de biomoléculas promissoras, reduzem ciclos de pesquisa e aumentam a assertividade no desenvolvimento de protótipos.

Todas essas rotas convergem para um mesmo objetivo: reduzir vulnerabilidades produtivas, criar capacidade industrial nacional e transformar a biodiversidade brasileira em vantagem competitiva estratégica. Para isso, estamos alinhando investimentos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), chamadas da Finep, programas da Embrapii e bolsas do CNPq, sempre incentivando a aproximação entre ICTs e empresas e a incorporação de requisitos regulatórios desde as etapas iniciais dos projetos de pesquisa.

Superar a lacuna entre pesquisa, desenvolvimento e produção é essencial para consolidar a liderança brasileira em biotecnologia. Que tipo de coordenação entre MCTI, Ministério da Saúde e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) o senhor considera decisiva nesse processo?

A coordenação entre MCTI, Ministério da Saúde e MDIC precisa ser construída com base em uma visão integrada que percorra todo o ciclo da inovação, desde a descoberta científica até a produção industrial e a oferta de soluções ao SUS e ao mercado. O Brasil só conseguirá consolidar sua liderança em biotecnologia se esses três elos trabalharem de forma harmônica, com instrumentos complementares e metas comuns.

Do ponto de vista do MCTI, o primeiro eixo crítico é garantir que ICTs e empresas atuem juntas desde o início dos projetos, reduzindo a lacuna de maturidade tecnológica. As ICTs avançam até TRLs iniciais, já as empresas, em geral, só entram quando há maturidade e demanda. Para superar isso, precisamos de programas interministeriais que estimulem TRLs intermediários, justamente quando a maior parte das tecnologias brasileiras hoje se perde.

O segundo eixo é a demanda pública estruturante. O Ministério da Saúde tem papel decisivo ao utilizar encomendas tecnológicas, compras públicas inovadoras e estratégias do CEIS para dar previsibilidade às empresas, criando o “primeiro mercado” que justifica investimentos privados em P&D e produção. Sem demanda pública clara, o setor produtivo não assume o risco necessário.

O terceiro ponto é a coordenação regulatória. Precisamos fortalecer o diálogo entre Anvisa, MCTI e Ministério da Saúde para que a regulação se alinhe ao avanço científico. Isso inclui criar mecanismos de interação direta com ICTs para que tecnologias desenvolvidas em ambientes de pesquisa amadureçam já alinhadas às exigências sanitárias. Do contrário, tecnologias promissoras chegam à fase de validação sem aderência regulatória, gerando atrasos ou inviabilização de projetos.

Por fim, o MDIC tem papel central na industrialização, ao articular incentivos à produção local, acesso ao crédito (como via BNDES), estímulos à inovação e instrumentos para reduzir a dependência de importações em rotas críticas. Quando esses instrumentos são alinhados a uma agenda comum, nasce um pipeline completo: (1) pesquisa, (2) desenvolvimento tecnológico, (3) regulação, (4) produção e (5) compras públicas.

Em resumo, a coordenação decisiva é aquela que transforma políticas setoriais em uma estratégia única para o País, reduz vulnerabilidades produtivas, fortalece o CEIS, integra ICTs e empresas e acelera a chegada de novas biotecnologias ao mercado e ao SUS.

Como o governo enxerga o papel de instrumentos financeiros inovadores no fortalecimento do CEIS e da biotecnologia nacional?

Entendemos que os instrumentos financeiros inovadores, especialmente o blended finance, são fundamentais para reduzir o risco dos projetos de biotecnologia e atrair capital privado para áreas estratégicas do CEIS. Ao combinar subvenção pública, garantias e investimento privado, esse modelo viabiliza etapas críticas, como estruturação de plantas-piloto, validações regulatórias e escalonamento produtivo, uma vez que tais etapas ainda enfrentam dificuldades de financiamento.Nesse contexto, os editais de subvenção econômica da Finep e suas linhas de crédito reembolsável direcionadas à inovação podem funcionar como pilares do blended finance. Eles permitem que o governo assuma parte do risco tecnológico e diminua o custo de capital para as empresas, criando condições reais para que tecnologias desenvolvidas em ICTs avancem até a produção. Quando articulado com a demanda pública do SUS, com políticas industriais do MDIC e com uma regulação integrada à Anvisa, o blended finance (apoiado pelos instrumentos da Finep) pode se tornar um catalisador para transformar ciência em produtos, fortalecer a base produtiva nacional e reduzir vulnerabilidades do País em saúde e biotecnologia.

Thiago de Mello Moraes
Thiago de Mello Moraes
Coordenador-geral de Ciências da Saúde, Biotecnológicas e Agrárias, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
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