Em um cenário global marcado por cadeias de suprimentos instáveis, rápidas inovações e crescentes tensões geopolíticas, a soberania nacional passa, inevitavelmente, pela capacidade de produzir conhecimento e bens de alto valor agregado. O Brasil volta a dar passos nessa direção, investindo em um de seus pilares mais dinâmicos: o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Esse conjunto de indústrias tem a característica única de conseguir induzir o desenvolvimento socioeconômico do País e o acesso da população a seu bem mais precioso, que é a saúde.
A atual gestão da ABIFINA se aproxima da conclusão de seu mandato, em março de 2026, com a certeza de dever cumprido em relação à agenda não apenas do CEIS, como da bioeconomia, da saúde animal, dos defensivos agrícolas, da propriedade intelectual, entre outras. A entidade se dedicou intensamente a produzir análises, posicionamentos, estudos e reuniões, com poder de influência na construção dos normativos vigentes e das políticas públicas em andamento. A manutenção dessas políticas no longo prazo depende, em boa parte, da atuação diligente das entidades representativas como a ABIFINA, cientes de que a força do setor vem da integração entre inovação, produção e Política de Estado.
Esta edição da FACTO mostra que o caminho trilhado é correto, pois a nova fase das políticas públicas começa a entregar resultados. A Matéria Política apresenta um panorama da expansão da biotecnologia no Brasil, área na qual o País apresenta diferencial competitivo devido à sua rica biodiversidade. Governo e empresas despertaram para esse potencial e buscam oportunidades para dar um salto com mais inovação, desenvolvimento e competitividade, inclusive no cenário global.
A ABIFINA trabalha a agenda da bioeconomia intensivamente, participando dos debates, encaminhando propostas – com destaque para os insumos farmacêuticos vegetais e os fitoterápicos – e oferecendo treinamento para profissionais das empresas associadas, seja para fazerem pesquisas com biodiversidade de acordo com a lei brasileira, seja para protegerem a propriedade intelectual decorrente das criações.
As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) são outra pauta prioritária. Sempre com a participação da ABIFINA, o governo reformulou o marco legal, firmou novas parcerias e disponibilizou grande volume de investimentos via Nova Indústria Brasil (NIB). Nesta edição, a reportagem do Setorial Saúde pesquisa os projetos nos quais o segmento farmoquímico está investindo para aproveitar este novo momento. Também avalia o que o governo ainda pode fazer para potencializar ainda mais os investimentos privados. As PDPs são o principal instrumento para verticalizar a cadeia produtiva, internalizar tecnologias críticas, reduzir a histórica dependência de importações de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) e garantir a segurança sanitária do País e ampliar o acesso.
O Terceiro Censo da Indústria Farmoquímica Brasileira, realizado pela Fiocruz em parceria com a ABIFINA e a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abifquifi), fornece o diagnóstico para essa jornada. O mapeamento das 37 empresas ativas, a quantificação da capacidade ociosa e a constatação de que cerca de 95% dos IFAs sintéticos ainda são importados revelam tanto os desafios quanto a base sobre a qual se deve construir a autonomia produtiva. A política industrial, com a NIB e o Plano Mais Produção, fornece o arcabouço necessário para a reindustrialização, reposicionando o setor nacional como protagonista.
Contudo, o caminho para a consolidação dessas parcerias é complexo e demanda ajustes finos. As dificuldades das PDPs não se resumem à sua retomada, mas às suas efetividade e sustentabilidade econômica. Como apontado por especialistas do setor, é fundamental avançar em mecanismos que garantam a compra efetiva do IFA nacional após seu desenvolvimento, assegurando contratos de fornecimento de longo prazo que justifiquem os pesados investimentos industriais. Atualmente, a norma que rege as parcerias determina a inclusão, mas não a aquisição obrigatória, do IFA nacional, permitindo que fornecedores estrangeiros abasteçam os projetos durante praticamente toda a Fase III.
Essa lacuna marginaliza a indústria local e compromete o objetivo último de internalização tecnológica. Além disso, a precificação dos medicamentos resultantes das PDPs e a correta remuneração dos custos associados à transferência de tecnologia são pontos sensíveis, demandando transparência e equilíbrio para garantir a viabilidade dos projetos e a correta aplicação dos recursos públicos.
A discussão sobre preços e sustentabilidade se conecta a um desafio maior e histórico: a competitividade frente a gigantes internacionais, notadamente China e Índia. A disparidade de escala, políticas agressivas de subsídios e estruturas produtivas consolidadas nesses países criam uma assimetria difícil de superar apenas com demanda doméstica.
O gargalo da farmoquímica nacional muitas vezes não é a capacidade de produzir tecnologias, mas a escala limitada pela estrutura de produção e pela falta de mão de obra especializada. Para competir, o Brasil precisa ir além. É imperativo utilizar a poderosa alavanca da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) para fomentar projetos de maior densidade tecnológica e valor agregado, pelos quais a indústria nacional possa oferecer soluções customizadas e inovadoras.
Diante disso, a inovação radical precisa estar no centro das políticas públicas hoje. Isso demanda um fluxo contínuo de fomento à pesquisa em bio e nanotecnologia, inteligência artificial aplicada e química verde, com estreita colaboração entre universidades, institutos de pesquisa e a indústria, com o Estado compartilhando o risco tecnológico. Iniciativas como o futuro Centro de Competência em RNA mensageiro, com investimentos de R$ 60 milhões, e os R$ 6 bilhões previstos para o Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (CIBS) da Fiocruz são exemplos do que precisa ser feito.
Soma-se a esse contexto a recente escalada de tensões comerciais, com os Estados Unidos adotando medidas protecionistas que impactam as cadeias globais de valor. A guerra comercial, cujos efeitos serão monitorados de perto pela ABIFINA em articulação com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e outras entidades representativas, sinaliza uma era de maior instabilidade e fragmentação do comércio internacional.
Esse novo cenário não é uma ameaça distante; é uma realidade que se consolida e impõe urgência à necessidade premente de o Brasil avançar na agregação de valor a seus produtos e na construção de uma base industrial resiliente e inovadora. Depender de cadeias de suprimentos globais excessivamente sensíveis a decisões geopolíticas é um risco que a segurança sanitária e econômica do País não pode mais correr.
Uma visão estratégica sobre tal cenário vai além das fronteiras do CEIS. Por isso, a atuação da ABIFINA se pauta pela compreensão de que é fundamental estruturar todo o ecossistema da química fina no Brasil, uma vez que existem grandes sinergias entre os segmentos. Da mesma forma, desafios regulatórios, de comércio exterior e de inovação são transversais, afetam toda a cadeia.
Por isso, a agenda da ABIFINA é ampla. Abrange desde a modernização do marco regulatório para defensivos agrícolas, fitoterápicos e saúde animal, até a participação ativa nos principais fóruns internacionais, como demonstrado na CPHI Worldwide 2025, em Frankfurt, e na organização do XVI Seminário Internacional Patentes, Inovação e Desenvolvimento (SIPID), realizado no Rio de Janeiro e Brasília, cuja cobertura se encontra nesta edição.
Olhando para o futuro, vale lembrar que a ABIFINA completará 40 anos em 2026, atingindo uma maturidade que lhe permitirá ousar ainda mais. A agenda é audaciosa, porém possível. O trabalho para o próximo ano deve se concentrar em aprimorar e consolidar os instrumentos que estão mostrando resultados, encarando de frente os desafios das PDPs e da competitividade. Na propriedade intelectual, tema central do SIPID, é preciso fomentar a geração de patentes nacionais – o Censo Farmoquímico contabiliza aproximadamente 200 no setor – e buscar incessantemente o equilíbrio entre incentivo à inovação e acesso à saúde, combatendo práticas que buscam estender monopólios além dos prazos legais.
O caminho para a mudança está sendo trilhado, com o setor produtivo organizado, diagnosticando suas próprias bases e dialogando propositivamente com o Estado. A ABIFINA tem enorme orgulho de seu protagonismo nessa trajetória obtido ao longo da atual gestão. O momento agora é de convergir esforços para garantir que a política industrial se converta efetivamente em industrialização, emprego qualificado e soberania tecnológica. Este é o imperativo brasileiro, para o qual a ABIFINA continuará se dedicando.


