REVISTA FACTO
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Set-Dez 2025 • ANO XIX • ISSN 2623-1177
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Biotecnologia no Brasil: do berço esplêndido, nasce uma potência industrial sustentável
//Matéria Política

Biotecnologia no Brasil: do berço esplêndido, nasce uma potência industrial sustentável

Expansão do setor, que deverá movimentar US$ 69 bilhões em 2030, é a nova fronteira da indústria nacional de química fina; conheça as ações e os desafios nessa área.

Deitado em berço esplêndido, como diz o hino nacional, o Brasil é o país com a maior biodiversidade do mundo, possuindo mais de 20% do total de espécies do planeta, entre terra, ar e água, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Com tamanha riqueza que vem de berço, o Brasil está despertando para transformar essas vantagens em mais prosperidade, soberania e desenvolvimento industrial – tudo isso com sustentabilidade, deixando um legado para as próximas gerações. Tal movimento ganhou ainda mais força em 2025, com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30), em novembro passado, na cidade de Belém do Pará.

No contexto da chamada bioeconomia, uma das áreas de maior expansão (e mais promissoras) para a indústria é a biotecnologia, que envolve o uso de sistemas biológicos, organismos vivos e seus derivados para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores. Ela vem impulsionando segmentos como fármacos, vacinas, saúde animal, cosméticos, gestão de resíduos e agricultura, além de contribuir para a mitigação das mudanças climáticas.

Nesta reportagem, a FACTO analisa o bilionário mercado de biotecnologia no Brasil, destacando o cenário atual, ações em andamento, perspectivas futuras e desafios que ainda precisam ser enfrentados, sobretudo após a pandemia da covid-19 revelar fragilidades na indústria, mas também importantes capacidades instaladas no País.

Andrey Freitas

“Com a expansão da biotecnologia, temos a oportunidade de dar um salto na indústria brasileira de química fina, com mais inovação, desenvolvimento e competitividade, inclusive no cenário global”, define o presidente executivo da ABIFINA, Andrey Freitas.

Crescimento exponencial nessa década 

Os números são expressivos sobre a importância (e o potencial) da indústria de biotecnologia no Brasil. De acordo com relatório da consultoria Grand View Research, o mercado brasileiro nessa área movimentou US$ 27,3 bilhões em 2023, com a previsão de chegar a US$ 69,1 bilhões em 2030, o que representa um crescimento médio anual de 14,2%. O setor de saúde foi o que mais contribuiu para esses indicadores.

Confirmando essa tendência, quase metade das 952 deep techs (empresas de base científica e tecnológica que desenvolvem soluções para problemas complexos) identificadas no Brasil – isto é, 433 empresas – atua com biotecnologia, especialmente voltadas para saúde e agronegócio, segundo relatório da consultoria Emerge

Ainda de acordo com a Grand View Research, o Brasil representa 1,8% do mercado global de biotecnologia, o que parece pouco para quem possui mais de 20% das espécies do planeta. A consultoria estima que o mercado internacional tenha alcançado mais de US$ 1,55 trilhão em 2023, podendo chegar a US$ 3,88 trilhões até 2030, impulsionado pelo desenvolvimento da inteligência artificial e outras ferramentas digitais que contribuem para acelerar as ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação.

De volta ao cenário brasileiro, ao avaliar os empregos diretos e indiretos no segmento de biossoluções (que inclui a biotecnologia), estima-se que o setor tenha gerado 95 mil postos de trabalho em 2024, e poderá chegar a 276 mil em 2035, segundo relatório da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI). 

Nesse contexto, a biotecnologia contribui para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores com maior valor agregado e impacto em diversas cadeias produtivas, além de gerar empregos mais qualificados. Assim, apresenta potencial destacado para fortalecer a base produtiva nacional, desenvolver plataformas tecnológicas inovadoras e estimular a inserção brasileira nas cadeias globais de valor, especialmente no segmento de química fina.

Para o vice-presidente de Biotecnologia da ABIFINA e assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Akira Homma, o cenário nacional é promissor.

Akira Homma

“As atividades biotecnológicas no Brasil vêm crescendo de forma acelerada. E observa-se um aumento de interação entre universidades, indústrias, investidores e governos, com financiamento público e privado”, afirma. Homma destaca também os polos de pesquisa em São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro, que envolvem parques tecnológicos e instituições de apoio como Biominas Brasil, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

Apesar dos desafios, indústria avança

Para concretizar todo esse potencial, ainda há muito a se fazer. De acordo com Homma, a evolução da indústria de biotecnologia no Brasil depende de diversos fatores, como a modernização de instalações e equipamentos, aumento da capacidade produtiva, formação de recursos humanos especializados e, principalmente, investimento em inovação e fortalecimento das atividades de pesquisa básica. 

Nesse cenário, o vice-presidente de Biotecnologia da ABIFINA defende a criação de uma política pública no âmbito da Nova Indústria Brasil (NIB) para fomentar a produção dos insumos necessários à fabricação de imunobiológicos, reduzindo a dependência das importações nessa área, além de ações para acelerar procedimentos relativos ao desenvolvimento e à produção de novas vacinas, o que se tornou urgente (mas também viável) após a experiência da pandemia. “São desafios que exigem uma participação muito maior e apoio do governo e das agências de fomento e financiamento”, frisa.

Na mesma linha, o relatório da Emerge sobre deep techs aponta gargalos nessa área, como a dificuldade de acesso à infraestrutura necessária de pesquisa e a baixa atração de investimentos privados em estágios iniciais da atividade, quando o risco é mais alto.

No âmbito da indústria nacional de química fina, a análise não é diferente. O cofundador e presidente do Conselho do Laboratório Cristália, Ogari Pacheco, resume os desafios enfrentados pelas empresas. “A produção de insumos e medicamentos biológicos demanda infraestrutura sofisticada, mão de obra altamente qualificada e ambiente regulatório ágil e harmonizado com padrões internacionais”, observa, destacando o alto custo de implantação de novas plantas industriais, a necessidade de atualização constante frente à evolução tecnológica e a complexidade dos processos regulatórios.

Pacheco ressalta ainda a importância de ações como parcerias público-privadas, incentivos fiscais e linhas de financiamento de longo prazo – e também para atividades com maior risco. Entre as demandas do setor produtivo brasileiro, também podem ser mencionadas a participação ampliada do capital privado, políticas de compras públicas inovadoras, marcos regulatórios estáveis e maior integração entre políticas públicas e estratégias empresariais.

Apesar disso, a indústria nacional vem avançando significativamente nos últimos anos. O Cristália, por exemplo, possui duas plantas de biotecnologia no complexo industrial de Itapira (SP) e, recentemente, anunciou investimentos de R$ 350 milhões para instalação de uma terceira planta, em Montes Claros (MG). 

Entre os projetos da empresa, merecem destaque o desenvolvimento da enzima colagenase animal-free, o primeiro insumo biológico produzido pelo laboratório, utilizado na produção de pomadas para feridas de difícil cicatrização e queimaduras; a somatropina do Cristália, o primeiro biossimilar aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que atualmente é distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) com Bio-Manguinhos/Fiocruz, beneficiando mais de 30 mil crianças e adolescentes com déficit de crescimento; e, mais recentemente, a polilaminina, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e produzida a partir da placenta de parturientes saudáveis, que se constitui numa esperança concreta para pacientes que sofreram lesões na medula espinhal. 

Ogari Pacheco

“Há muitos anos, destaco que o Brasil não pode ser meramente um importador de insumos e ficar dependente do produto externo. Por isso, sempre me empenhei, e continuo empenhado, na produção de insumo farmacêutico ativo (IFA) local. Isso tem permitido ao Cristália a produção de medicamentos com inovação radical inéditos no mundo”, explica o presidente do laboratório. 

Para a indústria nacional, está claro que a expansão ainda maior e contínua da biotecnologia brasileira depende do combate aos gargalos apontados. Nesse contexto, o gerente de Relações Governamentais da Libbs Farmacêutica, George Cassim, destaca a importância de se ampliarem a segurança jurídica e a previsibilidade das PDPs, transformando a atual regulamentação em política de Estado, e de se aprimorar o ambiente de inovação, com a integração de universidades, laboratórios públicos e setor produtivo, para fomentar a conversão das pesquisas em produtos.

George Cassim

“Para que empresas com plantas produtivas, atividades de pesquisa e desenvolvimento, e geração de empregos continuem investindo no País, é essencial consolidar um ambiente estável e claro”, defende Cassim.

COP30: anúncios de investimentos

De sua parte, o setor público vem buscando dar respostas a desafios que ainda são problemas para a biotecnologia nacional, como infraestrutura e investimento, entre outros gargalos.

Recentemente, durante a COP30, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançaram editais de investimento para empresas e instituições de pesquisa em sustentabilidade, totalizando R$ 460 milhões. Um dos editais é o Pró-Amazônia 2025, que inclui a biotecnologia entre as áreas contempladas e disporá de R$ 150 milhões para equipamentos, serviços e bolsas de pesquisa na região. 

Outro edital anunciado pela Finep foi o de Fundos de Investimento em Bioeconomia e Sustentabilidade, que prevê o investimento de R$ 60 milhões em até dois fundos de investimentos que possuam participações acionárias em empresas atuantes nas áreas de bioeconomia e sustentabilidade. Os recursos são provenientes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

Tais investimentos se relacionam ao contexto geral de cooperação da COP30, na qual foi lançada a plataforma internacional Bioeconomy Challenge, que reúne governos, empresas e sociedades para desenvolver uma agenda global com projetos, metas e recursos voltados à bioeconomia. 

Nesse cenário amplo, considerando todos os segmentos envolvidos com a transição energética, a Finep já investiu mais de R$ 12 bilhões desde 2023, reforçando o compromisso com a temática, por meio das ações vinculadas à NIB. 

A Embrapii também está destacando a biotecnologia em suas atividades de fomento. Em 2022, a empresa lançou a Rede de Inovação em Bioeconomia, numa parceria com o MCTI, oferecendo à indústria R$ 40 milhões em recursos não reembolsáveis, além do apoio de seus 28 centros de pesquisa, para estimular o desenvolvimento de novas soluções em áreas como biotecnologia, biofármacos e agricultura.

Mais recentemente, em 2025, a Embrapii e o Ministério da Saúde anunciaram R$ 150 milhões em investimentos para a inovação no segmento de saúde, que podem chegar a R$ 240 milhões ao incluir a contrapartida das empresas e instituições científicas e tecnológicas participantes. 

O destaque do anúncio é a chamada para credenciar o primeiro Centro de Competência em RNA mensageiro do Brasil, com investimentos de R$ 60 milhões voltados a temáticas como biotecnologia, diagnósticos avançados e a fabricação nacional de fármacos e farmoquímicos. O objetivo é fortalecer a inovação em vacinas e terapias, além de contribuir para a redução da dependência brasileira nesse setor. 

Nesse contexto de fomento à indústria nacional, cabe destacar ainda a parceria entre a ABIFINA e a Embrapii com foco na realização de eventos em conjunto, incluindo roadshows em empresas inovadoras, na divulgação dos instrumentos de apoio da Embrapii, e na promoção de maior interação entre os associados e as unidades da empresa.

Soberania na produção de vacinas

Parceiro da Embrapii, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também está investindo em biotecnologia, especialmente em atividades estruturantes. Um exemplo disso, anunciado em 2024, foi o investimento de R$ 386 milhões para uma nova planta industrial do Instituto Butantan, em São Paulo. O objetivo é permitir o desenvolvimento de bancos de vírus e células para produtos biológicos, como vacinas e medicamentos. 

Com investimentos totais de R$ 263 bilhões até 2026 no âmbito da NIB, o BNDES já aportou mais de R$ 74 bilhões na missão da política industrial voltada às cadeias agroindustriais sustentáveis, R$ 8 bilhões para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) e R$ 23 bilhões na bioeconomia (dados de outubro de 2025), beneficiando diversos setores relacionados à biotecnologia.

O BNDES participa ainda da retomada que levará à construção do Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (CIBS), no Rio de Janeiro – projeto da Fiocruz com apoio do Ministério da Saúde. Buscando a soberania nacional na produção de vacinas e biofármacos, além do potencial para atender às demandas de saúde pública globais, o CIBS terá capacidade de produzir cerca de 120 milhões de frascos por ano, tornando-se o maior centro de processamento de produtos biológicos da América Latina. Com isso, também irá fortalecer o papel da Fiocruz, que, em 2024, produziu 80 milhões de doses de vacinas para o Programa Nacional de Imunizações e 8 milhões de frascos/seringas a partir do seu portfólio de biofármacos. 

O contrato para a construção do CIBS foi assinado em 2022, mas o consórcio vencedor teve dificuldades e o impasse só foi resolvido em 2025, com a mediação do Tribunal de Contas da União (TCU). Nessa nova etapa, focada na estruturação de um processo para a retomada da construção, o projeto foi qualificado no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), vinculado à Casa Civil da Presidência da República. 

Inserido no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o projeto passará a contar com uma parceria entre a Fiocruz, o BNDES e a International Finance Corporation (IFC), uma das cinco organizações que integram o Banco Mundial. O investimento previsto é de R$ 6 bilhões, envolvendo recursos públicos e privados, e a licitação para escolher a empresa que irá construir e operar o CIBS deverá ocorrer durante o segundo semestre de 2026.

Junto com a nova fase do CIBS, o Ministério da Saúde anunciou, em novembro passado, 31 novas PDPs para a fabricação nacional de 28 produtos. Os projetos aprovados envolvem tratamentos de câncer, diabetes, artrite, doenças raras, antirretrovirais, vacinas para covid-19, entre outras. Essa também foi uma retomada, pois não havia seleção de novos projetos de PDPs desde 2017. No total, os investimentos anunciados para a indústria nacional chegaram a R$ 15 bilhões.

Com novos investimentos, reforço na infraestrutura produtiva e de pesquisa, e a ampliação das parcerias, a expectativa é de que a biotecnologia avance e, desse berço tão rico, nasça um Brasil mais próspero, soberano e industrialmente forte

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