Último dia do IFA Summit ABIFINA 2026 mostra iniciativas em economia circular, integração da agenda ESG e estratégias para fortalecer a produção nacional de IFAs

Com a análise sobre desafios e oportunidades para expandir a produção nacional de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), além de debates sobre sustentabilidade, inovação e harmonização internacional, a ABIFINA concluiu nesta quarta-feira, dia 8 de abril, no Rio de Janeiro, o IFA Summit ABIFINA 2026. O evento, iniciado no dia 7, contou com a correalização da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
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A programação do dia começou com o painel sobre cases de sustentabilidade e economia circular na produção de IFAs, moderado pelo 1º vice-presidente da ABIFINA, George Cassim, da Libbs. Em comum, os debatedores ressaltaram a necessidade de as empresas adotarem os princípios da sustentabilidade desde as etapas iniciais do desenvolvimento de produtos até o descarte, além de incorporarem essa agenda na cultura organizacional.
Na Globe Química, tal mentalidade já se tornou um hábito, nas palavras do coordenador de ESG Murilo Monteiro. O painelista abordou o tema a partir de uma perspectiva prática, com dados concretos que desmistificam a percepção ainda disseminada na sociedade de que o setor químico é altamente poluidor, o que não reflete a realidade da química fina, segundo ele. “No caso da Globe, a sustentabilidade é a forma de operar o nosso negócio”, afirmou.
Como parte dessa estratégia, a companhia implantou uma área dedicada à tecnologia industrial. Dessa forma, passou a investir em soluções pautadas nos princípios de química verde, economia circular, ganhos de eficiência e menor consumo de recursos, assim como geração de resíduos.
Um exemplo está no chamado desacoplamento entre crescimento produtivo e impacto ambiental. Até 2016, a Globe utilizava óleo BPF, que gerava resíduos nas caldeiras e emissões de gases relevantes. Com a transição para o gás natural liquefeito (GNL), foi possível ampliar significativamente a produção sem aumento proporcional das emissões.
Enquanto em 2016 a produção de 90 toneladas estava associada à emissão de cerca de 1.500 toneladas de gases de efeito estufa, em 2025 a produção chegou a 960 toneladas, com emissões próximas de 1.400 toneladas.
As inovações incrementais também podem gerar impactos significativos tanto no aumento de produtividade quanto na redução de custos. Erick Lorenzati, da Firjan, apontou que a química verde e o ecodesign ajudam a repensar o desenho dos produtos e dos processos industriais desde a origem. Exemplos incluem a revisão de embalagens para reduzir peso e volume, o que diminui custos logísticos e emissões de CO₂, ou ainda o desenvolvimento de materiais que facilitem a reciclagem.
O especialista também destacou a importância da melhoria contínua e da visão integrada da cadeia produtiva, questionando se produtos inservíveis em um processo não poderiam se tornar matéria-prima para outra indústria, como faz a Globe em relação a resíduos como os solventes, que são reaproveitados na produção ou vendidos.
Diálogo como solução

Daniel Cardoso, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), acrescentou um ponto diferente à discussão: mais do que a especialização técnica, a capacidade de diálogo é a habilidade central para compreender as demandas da indústria e estruturar respostas eficazes, como foi feito na construção da recente Política Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, segundo ele.
Representando a Secretaria de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do MDIC, Cardoso defendeu que a diversidade e a representatividade são elementos fundamentais para a formulação de soluções mais robustas, com o que chamou de “força dos encontros”. “O setor produtivo deve estar menos nos gabinetes e mais próximo dos técnicos”, declarou.
Dentro da ideia de somar esforços para obter a sustentabilidade em todas as etapas produtivas, Sarah Antunes, da Oli Consultoria ESG, acrescentou o uso de dados como ferramenta para qualificar fornecedores, direcionando a escolha daqueles que adotem boas práticas ESG. Nesse caso, porém, reconheceu haver um desafio adicional à indústria farmacêutica diante do restrito universo de possíveis parceiros.
Outro gargalo do setor, na visão de Antunes, é a logística reversa, que exige processos mais rigorosos de reciclagem para evitar riscos de contaminação em um setor altamente regulado. Ela ressaltou ainda a importância de processos consistentes para evitar práticas de greenwashing e reforçou que a agenda ESG deve ir além da dimensão ambiental — já amplamente coberta pela regulação no setor —, incorporando de forma mais ampla aspectos de governança e responsabilidade social.
Competitividade e integração da cadeia

O painel “Inovação tecnológica, cadeia produtiva avançada” aprofundou os desafios para fortalecer a produção nacional de IFAs. Na abertura, o moderador Fabio Cavalcante, da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), anunciou o Embrapii Day ABIFINA, evento em maio voltado à apresentação de competências tecnológicas para a indústria.
Nos debates, Rodrigo Souza, cofundador da Novasynth e professor de química orgânica na UFRJ, destacou que o Brasil dispõe de infraestrutura e mão de obra qualificadas, mas enfrenta problemas de competitividade internacional, especialmente em preços. Para ele, o avanço depende de políticas públicas e do fortalecimento da química de base – e não apenas dos IFAs.
Tatiana Ribeiro, gerente de Assuntos Regulatórios e Relações Governamentais do Grupo Centroflora, concordou que o desafio não se resume a ampliar a produção de IFAs, mas a alinhar prioridades estratégicas.
Ilustrando esta fala, Leonardo Teixeira, da Firjan, citou o caso de um anticoagulante necessário durante a pandemia, quando o País não dispunha de um insumo refinado. A partir de uma nota técnica que destacou oportunidades tecnológicas e de mercado, uma empresa buscou a Embrapii e firmou contrato para viabilizar a produção.
Na mesma linha, Leandro Novaes, também da Firjan, ressaltou a necessidade de criar plataformas que integrem todo o País, aproveitando o papel das instituições de ciência e tecnologia (ICTs) e promovendo uma formação mais orientada ao negócio. Segundo ele, é fundamental reunir os diferentes atores para explicitar gargalos existentes.
Sobre o uso da biodiversidade nacional, Ribeiro destacou que seu potencial depende de capacidade tecnológica, mencionando a Molecular Power House da Centroflora. A plataforma mantém bibliotecas químicas formadas a partir de 7 mil frações de 600 espécies de biomas brasileiros coletadas em expedições.
A especialista comentou ainda que matérias-primas vegetais não resultam apenas em fitoterápicos: o Grupo transforma a pilocarpina (ativo do jaborandi), por exemplo, em sal para exportação, atendendo a dois terços da demanda global.
Confira a cobertura do primeiro dia do IFA Summit ABIFINA 2026:
Evento discute desafios e perspectivas da produção de IFAs no Brasil
Regulação e qualidade marcam debates do IFA Summit ABIFINA
Fotos: Humberto Teski

