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Como surge um novo medicamento? (26/04/2018)

Até estar disponível para os pacientes, todo medicamento passa por um longo e custoso processo de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Das primeiras atividades relacionadas à descoberta de um princípio ativo até o início da comercialização, a produção de um novo medicamento compreende diferentes etapas e pode levar mais de dez anos, apresentando uma taxa de sucesso muitas vezes reduzida. Para cada medicamento lançado comercialmente podem ser testados até 10 mil compostos nas fases iniciais. Os custos são também muito elevados. Em média, são gastos US$ 1,38 bilhões para cada novo medicamento desenvolvido (IFPMA, 2015).

Entenda o que ocorre em cada etapa

Os primeiros passos para a criação de um novo medicamente ocorrem na etapa de pesquisa, na qual grandes empresas farmacêuticas trabalham muitas vezes em conjunto com startups, universidades e centros de pesquisa. O trabalho consiste inicialmente achar uma molécula promissora (lead), que seja candidata a se tornar uma nova droga, e realizar os primeiros testes e otimização química visando a sua efetividade e segurança. 

O potencial medicamento deve seguir, então, para os testes pré-clínicos laboratoriais (in vitro) e em animais (in vivo), com objetivo de determinar se ele é seguro para ser testado em humanos.  O dossiê de pesquisa é apresentado aos órgãos regulatórios e a comitês de ética em pesquisa, que aprovam se o novo medicamento pode ser testado em pessoas. 

A etapa seguinte, de ensaios clínicos, é a mais longa e custosa do processo, sendo dividida em três fases:

• Fase I – teste inicial de segurança em pequeno grupo de voluntários saudáveis, de forma a definir qual a maior dose possível tolerada por seres humanos e a menor dose que surte algum efeito;

• Fase II – teste de segurança e eficácia em pequeno número de pacientes com a doença, para verificar se o medicamento de fato é efetivo e para definir seu regime terapêutico (frequência, dosagem). A maioria dos produtos experimentais é reprovada nessa fase;

• Fase III – com a dose e o regime terapêutico geralmente definidos, essa fase amplia o número de pacientes testados e avalia a efetividade comparativa da droga em relação aos tratamentos existentes (ou a placebo, se for o caso). Nesta fase, são mapeados também os potenciais efeitos adversos e contraindicações.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é responsável por monitorar todas as etapas clínicas de desenvolvimento de um novo medicamento, garantindo que sejam seguidos os padrões científicos. Ao final do processo, é ela que concede à empresa o registro de medicamento, atestando que ele é seguro e eficaz para a indicação terapêutica inscrita em sua bula.

Além da Anvisa, monitoram todo o processo do ponto de vista ético, o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa, composto por Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) de cada unidade de saúde em que os testes são realizados, e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Toda pessoa que participa de um ensaio clínico deve assinar termo de consentimento, mas ainda assim não pode ser exposta a situações de risco desnecessárias. No Brasil, é vedado o pagamento para sujeitos de pesquisa. Essa prática varia de acordo com o país, sendo permitida nos Estados Unidos, mas também vedada na União Europeia.

Vacina contra dengue 

O Instituto Butantan desenvolve atualmente o maior ensaio clínico já realizado integralmente no país, envolvendo testes com cerca de 17 mil voluntários, a fim de testar a segurança e eficácia de uma vacina contra a dengue.  O projeto conta com a parceria do Instituto Adolfo Lutz e de 14 centros de pesquisa, sob coordenação da USP, além de apoio financeiro do BNDES

Saiba mais sobre o andamento do projeto

A evolução da P&D farmacêutica no Brasil

O mercado farmacêutico mundial movimenta aproximadamente US$ 1 trilhão por ano, e as principais empresas farmacêuticas investem cerca de 15% de sua receita líquida, em média, em atividades de pesquisa e desenvolvimento, destacando-se como um dos setores produtivos mais inovadores do mundo.

O investimento em P&D na indústria farmacêutica brasileira ainda é inferior à média mundial.  As empresas nacionais começam a dar os seus primeiros passos na pesquisa e desenvolvimento de novos princípios ativos. Nas etapas pré-clínicas, a ausência de empresas prestadoras desses serviços no país representa um grande gargalo para o setor, tornando o processo mais custoso pela necessidade de que sejam realizados no exterior.

Já a realização de testes clínicos no Brasil tem aumentado nos últimos anos, ainda que os atores nacionais (empresas e laboratórios oficiais) não tenham participação tão expressiva nesse processo e que a maioria desses testes esteja concentrada na Fase III – que tem menor densidade e risco tecnológico (ANVISA, 2012 apud GOMES et al., 2012). 

Segundo estudo conduzido pelo CGEE, com apoio do BNDES, as grandes empresas farmacêuticas brasileiras consolidaram nos últimos dez anos uma significativa capacidade no desenvolvimento de medicamentos genéricos e similares, que em alguns casos se estende para estudos clínicos, especialmente de Fase III. Essas empresas revelaram capacidades consolidadas no desenvolvimento de produtos conhecidos, similares e genéricos, além de novas formulações e apresentações. Por conta dessa atividade de desenvolvimento, que o setor denomina “P&D incremental”, as empresas acumularam também capacidades na realização de testes clínicos. Nas fases iniciais do P&D, as capacidades formadas de identificação de alvo, produção de moléculas e testes pré-clínicos (o que no jargão do setor chamam de “P&D radical”) ainda são incipientes.

Pesquisa para o tratamento da Doença de Parkinson

Antes focada nas inovações incrementais, as empresas farmacêuticas brasileiras têm buscado cada vez mais pesquisar e desenvolver medicamentos inéditos, movimento que conta com apoio do BNDES. Um exemplo nesse sentido é a parceria entre a empresa Prati Donaduzzi e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da Universidade de São Paulo (USP), no projeto que analisa a eficácia do canabidiol sintético (CDB) no tratamento de pacientes com Doença de Parkinson. Para isso, a entidade já realizou testes clínicos com 21 pacientes diagnosticados com a doença, com ensaio clínico de fase I. Os resultados da pesquisa apontam que houve melhora na qualidade de vida e no bem-estar dos pacientes tratados com a droga. 

Leia mais sobre a pesquisa da USP

Fonte: BNDES