REVISTA FACTO
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Jan-Abr 2026 • ANO XX • ISSN 2623-1177
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Soberania em construção: caminhos para fortalecer a indústria nacional
//Matéria Política

Soberania em construção: caminhos para fortalecer a indústria nacional

Cenário internacional de crises amplia a relevância da autonomia produtiva em setores estratégicos.  Conheça desafios e oportunidades do momento atual

Em tempos de instabilidade global, crises sanitárias e riscos climáticos, a palavra-chave é resiliência. Uma diretriz que vem redefinindo a organização das cadeias produtivas em todo o mundo. A sucessão de choques recentes, da pandemia de covid-19 aos conflitos geopolíticos e à intensificação de eventos climáticos extremos, expôs fragilidades nas cadeias globais de suprimentos e levou países e empresas a reavaliar estratégias antes centradas exclusivamente em custo, incorporando critérios como segurança de abastecimento doméstico, diversificação de fornecedores e, principalmente, autonomia produtiva.

No Brasil, esse movimento ganha contornos particularmente sensíveis em segmentos estratégicos, como a agroindústria e a saúde, sobretudo na produção de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), elo essencial da cadeia de medicamentos. Apesar de contar com um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo e uma indústria nacional consolidada, o País depende majoritariamente de fornecedores externos para suprir sua demanda. De acordo com o censo realizado em 2024 pela ABIFINA, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), até 95% dos IFAs utilizados no Brasil são importados, evidenciando uma vulnerabilidade estrutural que se torna ainda mais crítica em momentos de crise internacional e que coloca em xeque a própria soberania produtiva e sanitária do País.

É nesse cenário que combina riscos, desafios estruturais e a necessidade de garantir autonomia em áreas estratégicas que a FACTO reúne diferentes visões de economistas, representantes da indústria e especialistas em políticas públicas para discutir os desafios e as oportunidades de inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, especialmente nos segmentos farmoquímico e farmacêutico, bem como os caminhos para fortalecer a produção nacional em cadeias críticas, incluindo a de fertilizantes e defensivos agrícolas.

“Manter esse grau de dependência externa implica riscos que vão além da dimensão econômica. Trata-se de uma questão de soberania produtiva e da capacidade de resposta a emergências. No campo da saúde, a indisponibilidade de IFAs pode comprometer o acesso a medicamentos essenciais; no agronegócio, a escassez ou encarecimento de insumos impacta diretamente a produção e os preços dos alimentos”, explica Andrey Freitas, presidente-executivo da ABIFINA. 

Para superar esse cenário, no qual o País fica exposto a decisões estratégicas de terceiros e a eventos fora de seu controle, como ocorreu durante a pandemia, Freitas reforça que a solução está na indústria brasileira.

“Diante desse quadro, o fortalecimento da base produtiva nacional deve ser tratado como prioridade estratégica”, resume.

Alerta na pandemia

Se a pandemia funcionou como um alerta ao escancarar dificuldades de acesso a insumos e gargalos logísticos, os desdobramentos recentes mostram que o problema está longe de ser conjuntural. Tensões geopolíticas, disputas comerciais e eventos climáticos extremos vêm pressionando cadeias produtivas e reforçando a necessidade de respostas estruturais. Como destacou o economista Jorge Arbache, da Universidade de Brasília (UnB), durante o IFA Summit, evento promovido pela ABIFINA em abril, a reorganização das cadeias globais já não responde apenas à lógica de eficiência, mas à necessidade de garantir capacidade produtiva doméstica e reduzir vulnerabilidades.

“Estamos vendo uma preocupação crescente com a resiliência das cadeias globais, mesmo que, muitas vezes, isso implique custos mais altos. Em temas sensíveis, como a produção dos IFAs, temos que desenvolver uma política setorial com visão estratégica”, defende Arbache.

Diante desse cenário, os dados ajudam a dimensionar o tamanho do desafio brasileiro. De acordo com artigo do pesquisador Ricardo Torres, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), divulgado no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em setembro de 2025, mais de 80% dos insumos intermediários utilizados pela indústria farmacêutica nacional são importados, enquanto o déficit comercial do segmento farmoquímico supera os US$ 4 bilhões anuais. Por sua vez, a LCA Consultoria Econômica estima que, nas últimas duas décadas, cerca de 88% dos insumos farmoquímicos consumidos no Brasil vieram de outros países.     

O estudo divulgado pelo Ipea também aponta um movimento relevante: a produção doméstica de IFAs voltou a crescer nos últimos anos, indicando uma tentativa de recomposição da indústria nacional. Ainda assim, esse avanço ocorre em ritmo inferior ao crescimento das importações, mantendo o País estruturalmente dependente do exterior.

Ainda na análise estrutural, a economista Verônica Cardoso, da LCA, afirma que, até agora, praticamente não houve mudança no cenário brasileiro, apesar das lições deixadas pela pandemia.

“Houve algum aprendizado em termos de diversificação de fornecedores, mas esses avanços foram limitados e não alteraram a estrutura produtiva doméstica”, analisa Cardoso, que alerta para os riscos econômicos da dependência externa em tempos de crise, como o potencial impacto na inflação, pois os produtos importados estão sujeitos às variações cambiais, e a perda de renda no Brasil, já que as etapas com maior agregação de valor na cadeia produtiva ficam em outros países.

No setor de saúde, essa dependência persistente significa que a capacidade de produzir medicamentos, inclusive para o Sistema Único de Saúde (SUS), continua condicionada a fatores externos. Em momentos de crise, essa dependência impacta custos, prazos e pode afetar diretamente o acesso da população a medicamentos e tratamentos, transformando um problema industrial em um desafio de saúde pública.

Dependência e concentração

Esse quadro tem raízes históricas. A abertura comercial dos anos 1990 ampliou o acesso a insumos importados mais baratos, mas contribuiu para o enfraquecimento da base produtiva nacional. Sem políticas industriais consistentes ao longo do tempo, parte relevante da cadeia farmoquímica foi substituída por importações, sobretudo de países asiáticos.

Como recorda Marcus Soalheiro, vice-presidente de Tecnologia e Parcerias Estratégicas da Nortec Química, a globalização gerou a impressão de que quase todos os bens poderiam ser produzidos em qualquer lugar do mundo, desde que ficassem mais baratos. Porém, cadeias produtivas estratégicas e vulneráveis a perturbações, como a farmacêutica, mostraram que esse modelo pode colocar em risco a disponibilidade dos produtos e, portanto, a saúde das pessoas.

Marcus Soalheiro

“No caso do Brasil, que possui o maior sistema de saúde pública do mundo, é mandatória a construção de uma Política de Estado que direcione para a produção local aqueles insumos cuja falta pode paralisar ou inviabilizar o atendimento aos pacientes”, define Soalheiro.

Hoje, a produção global de IFAs está concentrada em poucos centros, com destaque para China e Índia. Os cinco principais países fornecedores concentram cerca de 77% das importações brasileiras, segundo dados do estudo publicado pelo Ipea. 

De acordo com a LCA Consultoria Econômica, a predominância da China não deve se reduzir nos próximos anos, já que, desde 1990, o país asiático vem ampliando de forma contínua sua participação no faturamento mundial da indústria química, passando de cerca de 4% para 40% em 2023, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), como resultado de políticas industriais robustas e de longo prazo. Esse cenário amplia a exposição brasileira a riscos geopolíticos e logísticos. 

“Esse padrão de dependência tende a ser relativizado em períodos de normalidade, quando a fluidez do comércio internacional esconde riscos estruturais. No entanto, as crises sucessivas que vemos hoje revelam que a lógica de eficiência baseada exclusivamente em custos globais pode implicar fragilidades relevantes em termos de segurança sanitária, produtiva e econômica”, ressalta Andrey Freitas.

Oportunidades e políticas

Ao mesmo tempo, o cenário internacional abre uma janela de oportunidades. Em um contexto no qual resiliência, sustentabilidade e regionalização ganham força, o Brasil reúne ativos relevantes para se reposicionar nas cadeias globais. A matriz energética, com cerca de 48% de fontes renováveis, e a maior biodiversidade do planeta – entre 15% e 20% das espécies conhecidas – deixam o País em posição estratégica para avançar em segmentos de maior valor agregado.

Jorge Arbache

“Precisamos buscar os nichos em que o Brasil consegue entrar com muita competitividade. Isso inclui a biodiversidade, que coloca o País em posição muito favorável no cenário global, mas também a possibilidade de ter energia renovável a preço baixo, o que se tornou um elemento de grande vantagem competitiva”, avalia Jorge Arbache.  

É nesse ponto que entram as políticas públicas. A Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024 pelo Governo Federal, estabelece como uma de suas missões fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade do SUS e ampliar o acesso da população à saúde por meio da produção nacional. A meta é produzir internamente 70% dos insumos, medicamentos e tecnologias utilizados na área de saúde até 2033. Para isso, a política prevê mobilizar cerca de R$ 57 bilhões até o fim de 2026, combinando investimentos públicos e privados.

Entre os principais agentes de fomento da NIB, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) atua no financiamento da expansão produtiva, enquanto a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) apoia projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação voltados à produção de insumos estratégicos. Já a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), com seus centros de competência, promove a conexão entre empresas e instituições de pesquisa, contribuindo para o desenvolvimento industrial.

Para Andrey Freitas, presidente-executivo da ABIFINA, a NIB exerce papel importante ao recolocar a política industrial no centro da agenda pública. Porém, o executivo destaca que o fortalecimento da indústria nacional é uma missão ampla e integrada, que envolve o adensamento das cadeias de química fina e biotecnologia, o estímulo à inovação, a ampliação da capacidade produtiva local, a construção de um ambiente regulatório estável e previsível e o reforço de cadeias regionais, especialmente na América Latina, entre outros aspectos.

“Mais do que iniciativas isoladas, é necessário compreender essas ações como parte de um ecossistema integrado, no qual política industrial, regulação, financiamento e desenvolvimento tecnológico atuam de forma coordenada”, frisa o dirigente.

Em análise do cenário atual, a atenção dada à indústria brasileira nas ações governamentais pode contribuir para superar problemas históricos, como a descontinuidade de políticas industriais, os ambientes tributários e burocráticos complexos e o baixo patamar de investimentos nacionais em pesquisa e desenvolvimento (P&D), em torno de 1,2% do PIB em 2023, segundo dados do Ipea. Nesse contexto, alguns fatores econômicos também podem indicar boas perspectivas para a indústria, como a sinalização de corte de juros pelo Banco Central, a redução de distorções históricas com a reforma tributária e a implementação do Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (PRESIQ), a partir de 2027. 

Verônica Cardoso

“Para o Brasil, a resposta racional é usar o novo ambiente macroeconômico para induzir investimentos em insumos estratégicos, reduzir dependências externas sensíveis e avançar em uma inserção internacional mais resiliente baseada em maior conteúdo local”, pondera Verônica Cardoso, da LCA. 

Eleições e abertura comercial

Para completar o cenário, outro fator relevante em 2026 é o contexto político. Por ser um ano eleitoral, há incertezas quanto à continuidade de políticas públicas, o que tradicionalmente impacta decisões de investimento. Ao mesmo tempo, o período eleitoral abre espaço para o debate sobre estratégias de desenvolvimento a longo prazo, oferecendo uma oportunidade para posicionar o tema da soberania produtiva no centro da agenda nacional.

A discussão se amplia ainda mais com os movimentos de abertura comercial, como o acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado em janeiro deste ano. Se, por um lado, o tratado pode ampliar mercados e estimular a competitividade das empresas brasileiras, por outro levanta preocupações quanto às assimetrias entre as estruturas produtivas. Em setores intensivos em tecnologia, há o risco de aumento da concorrência externa em um momento no qual a base nacional ainda busca ampliar sua escala.

Segundo Constanza Biasutti, gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o acordo tem potencial para ampliar significativamente a competitividade da indústria brasileira, desde que acompanhado por uma estratégia robusta de fortalecimento da base produtiva nacional.

Para ela, o acordo cria oportunidades de inserção internacional porque amplia o acesso da indústria brasileira a um dos maiores mercados do mundo, aumenta a previsibilidade regulatória e facilita investimentos. Porém, o ponto central é transformar a abertura em instrumento de reindustrialização e ganho de produtividade, por meio da transição tarifária gradual e previsível; política industrial ativa, com crédito, inovação e apoio à modernização do parque produtivo; fortalecimento das cadeias estratégicas nacionais; e melhoria do ambiente de negócios, com redução do Custo Brasil. 

Também deve-se buscar a inserção internacional orientada pela agregação de valor aos produtos, estimulando as exportações industriais de maior intensidade tecnológica.

Constanza Biasutti

“O acordo pode ser um poderoso vetor de competitividade. Seus benefícios tendem a ser potencializados se forem acompanhados por uma agenda doméstica consistente de desenvolvimento produtivo, de modo a alavancar a modernização industrial, a inovação e o fortalecimento da soberania produtiva brasileira”, avalia Biasutti.

Reposicionamento brasileiro

A dependência externa não é exclusiva do setor farmacêutico. Ela se repete em cadeias como a de fertilizantes, em que o Brasil importa cerca de 85% do que consome, e a de defensivos agrícolas, reforçando a vulnerabilidade diante de choques internacionais. De acordo com a LCA Consultoria Econômica, em 2023, 44% dos defensivos agrícolas usados no Brasil foram importados. Essa dependência gerou sérios impactos à agroindústria nacional, pois o conflito entre Rússia (principal fornecedora do produto) e Ucrânia reduziu o fluxo comercial e elevou os preços.

Esse padrão evidencia um desafio sistêmico. Em um mundo cada vez mais instável, fortalecer a produção nacional de insumos estratégicos deixa de ser apenas uma agenda econômica e passa a ser uma questão de soberania nacional.

Ao mesmo tempo, o cenário atual abre uma oportunidade rara: a de reposicionar o Brasil nas cadeias globais de valor, não apenas como consumidor, mas como produtor destacado em segmentos estratégicos, desde que consiga transformar seus ativos naturais, produtivos e científicos em capacidade industrial efetiva.

Andrey Freitas

“O momento atual deve ser encarado, portanto, não apenas como uma conjuntura adversa, mas como uma oportunidade de inflexão. Superar esse desafio exige visão de longo prazo, coordenação institucional e compromisso com o desenvolvimento das capacidades produtivas nacionais”, conclui Andrey Freitas.

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