Fonte: Diário de Cuiabá
06/08/26
Mais de 60% das doses contra clostridioses distribuídas em julho vieram do exterior
A crise no abastecimento de vacinas contra clostridioses continua preocupando a cadeia pecuária de Mato Grosso, mesmo após o aumento da oferta promovido pelo governo federal. Dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mostram que, das 10,16 milhões de doses disponibilizadas ao mercado brasileiro em julho, 60,3% foram importadas, evidenciando a crescente dependência do país da produção externa para atender a demanda do setor.
Ao todo, foram colocadas à disposição do mercado 10.159.270 doses no mês passado. Desse volume, 6.127.430 doses tiveram origem em laboratórios estrangeiros, enquanto apenas 4.031.840 foram produzidas pela indústria nacional.
A necessidade de recorrer às importações é resultado das dificuldades enfrentadas pelo setor desde abril, quando pecuaristas de Mato Grosso passaram a relatar escassez do imunizante em revendas agropecuárias e estabelecimentos credenciados. Apesar da ampliação da oferta nas últimas semanas, representantes dos produtores afirmam que o abastecimento ainda está longe da normalidade.
Maior produtor de bovinos do país, com mais de 31 milhões de cabeças, Mato Grosso permanece entre os estados mais afetados pela dificuldade de acesso às vacinas, justamente em um período considerado crítico para a sanidade animal.
Segundo o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Luís Fernando Conte, a escassez ocorre em um momento estratégico do calendário pecuário, coincidindo com a desmama dos bezerros, o início do primeiro giro do confinamento e a chegada da estiagem.
“A ausência do imunógeno contra clostridioses agrava ainda mais os riscos e os prejuízos aos pecuaristas. É lamentável que o Brasil, maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, esteja exposto a uma situação que compromete a segurança sanitária do rebanho e gera insegurança ao setor”, afirma.
A entidade informa que acompanha permanentemente as discussões com o Ministério da Agricultura, o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), cobrando medidas para normalizar o fornecimento.
O Ministério da Agricultura afirma que vem adotando uma série de medidas para reduzir o desabastecimento. Entre elas estão o incentivo à ampliação da produção nacional, a autorização para importações emergenciais e a agilização dos processos de fiscalização e liberação dos produtos.
Os números demonstram que essa estratégia ganhou força nos últimos meses. Na primeira quinzena de junho, por exemplo, as 3,13 milhões de doses disponibilizadas ao mercado brasileiro eram totalmente importadas. Em julho, embora a produção nacional tenha voltado a representar quase 40% do total, os imunizantes vindos do exterior continuam respondendo pela maior parte da oferta.
Para o setor pecuário, entretanto, o principal desafio deixou de ser apenas o volume disponibilizado nacionalmente e passou a ser a distribuição efetiva das vacinas nas regiões produtoras.
Risco sanitário – As clostridioses estão entre as enfermidades de maior impacto econômico na bovinocultura. Causadas por bactérias do gênero Clostridium, elas apresentam alta taxa de mortalidade e podem provocar perdas expressivas em rebanhos de corte e leite.
Animais jovens são considerados os mais vulneráveis, especialmente durante a fase de desmama, quando aumentam as situações de estresse e manejo.
Segundo a Acrimat, a dificuldade de aquisição das vacinas compromete o calendário sanitário das propriedades e eleva o risco de surtos justamente em Mato Grosso, estado que reúne o maior rebanho bovino do país e utiliza sistemas intensivos de produção, como confinamento, semiconfinamento e recria acelerada.
Para a entidade, a vacinação preventiva permanece como a principal ferramenta para evitar a disseminação da doença e preservar a produtividade da pecuária estadual.