Fonte: Gazeta do Povo
24/06/26

Por Bruno Maffi

22/06/2026 às 13:23

Com prejuízos estimados em R$ 435 bilhões por ano, a pirataria e o mercado ilegal estão entre os principais entraves à reindustrialização do Brasil, segundo um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP). Diante desse cenário, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) decidiu levar o tema ao centro do debate eleitoral e apresentará aos pré-candidatos à Presidência da República os impactos da pirataria, do contrabando e das fraudes sobre a competitividade da indústria nacional.

De acordo com uma sondagem da CNI, as empresas perdem, em média, 0,6% da receita líquida de vendas devido ao comércio ilegal. O impacto financeiro atinge com mais intensidade as pequenas e médias empresas, que possuem menor capacidade de absorção desses custos. No recorte geográfico, as regiões Norte (2,4%) e Centro-Oeste (2,3%) registram os maiores índices de perdas proporcionais.

“Esse cenário é agravado tanto pelas fraudes aduaneiras no comércio internacional quanto pelos crimes ambientais no interior do país, criando um ambiente de negócios hostil para quem atua dentro da lei”, aponta o superintendente de Política Industrial da CNI, Fabrício Silveira.

A expansão do mercado ilegal também afeta diretamente o bolso dos consumidores. Do prejuízo de R$ 435 bilhões causado pelo mercado ilegal, R$ 136 bilhões decorrem da evasão fiscal, reduzindo a arrecadação do governo e ampliando a carga tributária sobre quem cumpre suas obrigações fiscais.

Ao mesmo tempo, a indústria formal absorve prejuízos provocados pela concorrência desleal e pelos gastos crescentes com segurança, custos que acabam repassados ao preço final dos produtos. “O mercado ilegal cria um ciclo perverso para a economia. Quem produz e paga impostos corretamente enfrenta custos maiores, enquanto o consumidor acaba penalizado com preços mais altos”, aponta Silveira.

“Combater a ilegalidade é uma medida essencial para reduzir o ‘custo Brasil’, fortalecer a competitividade da indústria e garantir um ambiente de negócios mais justo”, defende o representante da indústria. As principais formas de vitimização identificadas pelo setor industrial concentram-se em quatro frentes:

roubo ou furto de carga em transporte: afeta 32% das empresas;não conformidade técnica de produtos: atinge 29% do setor;roubo interno nas instalações: representa 20% das ocorrências;descaminho, subfaturamento e falsa declaração de origem: responde por 15% dos casos.

Vestuário e bebidas lideram perdas bilionárias com mercado ilegal

Como consequência direta dessas atividades ilícitas, metade das indústrias afetadas relata perda de receita bruta, enquanto 30% registram redução na participação de mercado. O ecossistema ilegal também desestimula a inovação em 6% das empresas vitimadas, fator que compromete o desenvolvimento tecnológico nacional a longo prazo.

“A perda de receita e de participação de mercado é apenas a face mais visível do problema. O mais preocupante é que a concorrência desleal corrói a capacidade de inovação das empresas, comprometendo investimentos, produtividade e a construção de uma indústria nacional mais forte e competitiva”, afirma o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel.

Produtos piratas movimentam uma cadeia ilegal que gera concorrência desleal e reduz a competitividade da indústria nacional. (Foto: Leandra Felipe/Agência Brasil)

Perdas econômicas causadas pelo mercado ilegal em 2024/2025:

vestuário – R$ 87,3 bilhõesbebidas alcoólicas – R$ 85,2 bilhõescombustíveis – R$ 29,0 bilhõesmaterial esportivo – R$ 23,3 bilhõeshigiene pessoal, perfumaria e cosméticos – R$ 21,0 bilhõesdefensivos agrícolas – R$ 20,5 bilhõesouro – R$ 12,7 bilhõesTV por assinatura – R$ 12,1 bilhõesóculos – R$ 11,0 bilhõescelulares – R$ 9,7 bilhõesCigarros – R$ 8,8 bilhõesfilmes – R$ 4 bilhõesperfumes importados – R$ 1,3 bilhõescomputadores – R$ 1,1 bilhõesbrinquedos – R$ 600 milhões

*Fonte: Fórum Nacional contra a Pirataria e Ilegalidade (FNCP)

Pirataria e mercado ilegal estrangulam o crescimento da indústria brasileira

Para reverter o cenário de concorrência desleal, a CNI formalizou as demandas da categoria em quatro eixos estratégicos:

criação da “malha fina” aduaneira: A indústria exige a implementação do Sistema Nacional de Monitoramento Estratégico das Importações. A ferramenta visa rastrear volumes atípicos e desvios de comércio em tempo real para barrar produtos subsidiados e fraudes no comércio exterior.combate aos crimes ambientais: O setor demanda ações rigorosas contra o desmatamento ilegal e a grilagem, além da consolidação de sistemas de rastreabilidade da produção florestal para a competitividade da bioeconomia.ingresso na OCDE: A entidade defende a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) como um selo de integridade regulatória e governança, capaz de atrair capital estrangeiro.transparência no mercado de carbono: As propostas incluem a estruturação de um sistema nacional de Mensuração, Relato e Verificação (MRV) auditável para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).Posicionamento da CNI reúne propostas para o próximo governo

Presidenciáveis vão receber proposta que inclui combate à pirataria

A CNI sedia nesta segunda-feira (22) em Brasília, o encontro “A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis”. O evento reúne lideranças empresariais e os pré-candidatos à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) para debates individuais sobre o desenvolvimento econômico.

Durante o evento, a diretoria da CNI entrega aos políticos o documento “Construindo o Brasil 2050 – A indústria na agenda dos presidenciáveis”. A cartilha detalha as diretrizes econômicas recomendadas pelo setor produtivo para os próximos quatro anos.

O texto reúne propostas estruturais em áreas como política industrial, inovação, infraestrutura de transportes, reforma tributária e segurança jurídica, e condiciona a eficácia de reformas econômicas à erradicação do mercado ilegal. A CNI defende que o fortalecimento da competitividade nacional depende da superação de entraves estruturais, como o

“custo Brasil”, a insegurança e o mercado ilícito.

“A reindustrialização não significa simplesmente recuperar indústrias do passado, mas construir um ambiente de negócios seguro, com previsibilidade tributária, promoção da inovação e fomento à legalidade. Trata-se de um projeto de país, capaz de gerar crescimento econômico de longo prazo e empregos mais qualificados e bem remunerados”, afirma Silveira.

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