Fonte: Jota
15/04/26

A sexta e última edição da newsletter especial mostra como a expansão do crime organizado rumo ao interior do Brasil se choca com o agronegócio

Estúdio JOTA

09/04/2026 19:16

A operação Ruptura CPX, deflagrada no final do mês passado, não se deu em um complexo de favelas no Rio de Janeiro, como a sigla pode dar a entender.

Na verdade, o cenário foi Cuiabá (MT), um dos polos do agronegócio brasileiro. As investigações começaram com furto e receptação de defensivos agrícolas, mas desembocaram em roubos de veículos, armas, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e domínio territorial.

O episódio mostra como a expansão do crime organizado rumo ao interior do Brasil, longe das capitais em que nasceram, como a carioca e a paulista, se choca com outros motores da economia, como o agronegócio.

Os agrotóxicos ilegais têm sido combustível para essa infiltração – com consequências não apenas para o setor agrícola, mas ambientais, para saúde pública e a qualidade da produção brasileira como um todo. Esse universo é explorado pela reportagem de Victoria Lacerda.

Carolina Unzelte é editora convidada de Economia Legal, e Letícia Paiva é a coordenadora criativa do projeto.

Boa leitura!

Tempo de Leitura: 7 min

Editado por Carolina Unzelte

EXPLICADO

Agrotóxico ilegal abastece o campo brasileiro com logística e facção por trás

Ao longo da última década, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a disputar territórios nas zonas agrícolas, onde encontram infraestrutura para o transporte, menor presença do Estado e cadeias produtivas com grande circulação financeira. O diagnóstico é do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Nesse contexto, o mercado de defensivos agrícolas ilegais é uma das mais novas minas de ouro da interiorização das facções. Esses produtos se movimentam por elos logísticos próprios do crime organizado, que formam a chamada “Rota Caipira”, conectando fronteiras ao interior do país. Dados da Receita Federal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pelo JOTA, somados a levantamentos do setor, dão pistas sobre o espaço ocupado por esse mercado ilegal.

O volume total de agrotóxicos apreendidos nas rodovias federais, incluindo produtos contrabandeados, falsificados, adulterados ou sem registro no país, chegou a 127 toneladas em 2025, mais do que o dobro das 62,9 toneladas apreendidas em 2024.

Essa rede opera com divisão de funções, envolvendo transportadoras, caminhões e intermediários locais para pulverizar a distribuição e confundir a fiscalização, segundo as investigações. Para impedir que os produtos sejam rastreados, elas falsificam rótulos e reutilizam embalagens. Por fim, o mercado do insumo agrícola se consolidou como um dos elos de lavagem de dinheiro das facções. ?

A presença desses produtos, além de representar concorrência desleal, cria riscos operacionais e comerciais para produtores e empresas, além de levantar preocupações ambientais e sanitárias. Produtos sem registro podem contaminar solos e mananciais, além de gerar resíduos acima dos limites permitidos, por exemplo.

Leia a reportagem completa de Victoria Lacerda.

EM NÚMEROS

Quais são os negócios das facções no interior e zonas rurais?

PCC: contamina carregamentos de grãos e carne com drogas, investe em frotas de caminhões bitrens e em pistas de pouso em fazendas de fachada.

Comando Vermelho: privilegia o domínio na Amazônia Legal, financiando-se por atividades como garimpo ilegal e extração de madeira.

No primeiro semestre de 2025, 70% das apreensões de drogas no estado de São Paulo se concentraram no interior.

R$ 20 bilhões por ano: é o valor que o mercado ilegal movimenta por ano.

R$ 10 bilhões: são as perdas causadas por sementes piratas no cultivo de soja.

Fontes: “O Crime Transnacional no Agro: a Infiltração do Crime Organizado como Nova Matriz de Risco do Agronegócio Brasileiro”, do Insper; e Secretaria de Segurança Pública (SSP).

RADAR

O que acompanhar nesta quinzena

“Radical”. É o que senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse, nesta semana, que será na segurança pública. Ele também defendeu o enquadramento das organizações criminosas como terroristas, ecoando o movimento do governo Donald Trump

Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de olho na disputa pela reeleição, insistiu que quer criar um ministério para a segurança pública. Mas, novamente, condicionou a ação à aprovação da PEC da Segurança Pública, que aguarda apreciação no Senado.

O pré-candidato do PSD, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também já falou sobre o tema. Em seu pronunciamento de lançamento da pré-candidatura na última semana, trouxe o combate ao crime como tópico central.

Ainda em ritmo de eleição. Pelo menos 15 ex-secretários de Segurança ou chefes das polícias Militar e Civil anunciaram a intenção de se candidatar neste ano, segundo levantamento do jornal O Globo. Com presença digital e experiência em cargos correlatos à área, eles buscam se posicionar na maior preocupação dos brasileiros, segundo as pesquisas.

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